A estação das artes em Londres

Texto: Valéria Bravo Maynard

 

A chegada do outono espalha pelos parques e ruas dos países do Hemisfério Norte o característico multicolorido dos tapetes de folhas marrons, amarelas e douradas, anunciando a estação das mudanças. Esta época do ano, em especial o mês de outubro, costuma trazer também para a capital inglesa, já culturalmente agitada, uma imensa diversidade de feiras e exposições de arte. No entanto, nenhuma é tão grandiosa - em estrutura ou em reconhecimento internacional- e nem tão aguardada quanto a consagrada Frieze London Art Fair, e, mais recentemente, a irmã caçula, Frieze Master. As duas feiras se encerraram no último fim de semana, arrastando multidões de visitantes aos jardins do Regent’s Park, no coração de Londres. As atrações iam desde as milhares de obras de arte espalhadas pelos corredores das mostras a uma programação diária intensa, incluindo visitas guiadas, palestras, encontros, atividades interativas e performances.

Divulgação

Divulgação


Frieze London 2015

Uma das mais importantes feiras internacionais de arte contemporânea, em sua 13º edição, contou com trabalhos de mil artistas, distribuídos pelas 164 galerias de 27 países. O Brasil foi representado por seis galerias, entre elas a Fortes Vilaça e a Vermelho, de São Paulo, e A Gentil Carioca, do Rio de Janeiro. 

Na enorme tenda montada, ocupando uma área total de quase 24 mil metros quadrados, a Frieze London apresentou na mostra principal diversos trabalhos de artistas já consagrados. Na seção Focus, o espaço foi destinado às novas galerias, criando a oportunidade para que o público em geral e também colecionadores descobrissem artistas emergentes.  Mas, sem dúvida, um dos pontos altos e mais comentados pelos visitantes foi a seção Live, que, pela segunda vez consecutiva na mostra, incluiu várias atividades interativas e performances de artistas, entre eles Ken Kagami (Misako & Rosen, Tóquio). O japonês fazia em 20 segundos portraits bem humorados com foco nas genitálias de quem, desde que fosse maior de 18 anos, se dispusesse a entrar na fila para ser assim, digamos, retratado. Todos devidamente vestidos, diga-se de passagem. Outra performance que gerou burburinho e até assustou os mais distraídos foi a reedição das Xifópagas Capilares (1984), do artista brasileiro Tunga, com duas meninas, que - vestidas de forma semelhante, sempre de mãos dadas, cabisbaixas, com ar misterioso e unidas pelas longas madeixas -, circulavam livremente entre os visitantes. 

Xifópagas Capilares (Tunga)

Xifópagas Capilares (Tunga)

 

Frieze Masters 2015

A quarta edição da feira, que terminou domingo, apresentou pelas 130 galerias espalhadas em cerca de 16 mil metros quadrados um panorama da história da arte mundial. São obras que resistiram ao teste do tempo e vão desde a Roma Antiga aos anos 2000. Um universo rico e abrangente de antiguidades, Arte Oriental, Medieval, Moderna, Pós-Guerra, Sacra, além de etnografia, manuscritos iluministas, fotografias, esculturas, entre outros. 

A seção Spotlight era dedicada a exibições solo de artistas do século 20, revelando figuras pioneiras em momentos fundamentais nas artes, incluindo artistas do movimento Pop do Brasil e Japão. Destaque para a artista Wanda Pimentel, representada pela galeria carioca Anita Schwartz, e Keiich Tanaami, pela Nanzuka, de Tóquio. 

Para Anita Schwartz, ter sido selecionada para a mostra foi um reconhecimento do trabalho de qualidade da galeria, mas foi, sobretudo, uma vitória de convencimento estar na Frieze Masters com os quadros da Wanda Pimentel. “É que a artista tem muito ciúme das obras destas décadas de 1960 e 1990. Ela tem pouquíssimos trabalhos destes períodos. Já tínhamos recebido outro convite há três anos e não foi possível convencer a Wanda. Desta vez, consegui convencê-la”. Atualmente, a artista está em cartaz em dose tripla: além da Masters, outros trabalhos de Wanda podem ser vistos na mostra itinerante International Pop, que já passou pelo Walker Art Center, de Minneapolis, e fica até janeiro de 2016 no Dallas Museum of Art, no Texas; e na mostra da The EY Exhibition: The World Goes Pop, na Tate Modern, em Londres.

As paulistas  Baró, com obras de David Medalla, e Nara Roesler, representando Tomie Ohtake, são as duas outras galerias brasileiras participantes da Spotlight. O artista brasileiro Tunga ganhou também uma exibição individual, mas com o duo de galerias Luhring Augustine, de Nova Iorque /Franco Noero, de Turim. Já na mostra principal, a Dão, de São Paulo, foi mais uma galeria brasileira que marcou presença na Masters. 

Anita Schwartz

Anita Schwartz

Dilemas de colecionador - Neste universo de milhares de obras em labirintos de corredores a oferecer as mais variadas formas e expressões artísticas, como deve se comportar um colecionador, principalmente um iniciante, para melhor avaliar, selecionar e adquirir uma peça realmente relevante para sua coleção? Gita Cooper-Van Ingen, administradora da galeria Daniel Blau, presente em Munique e em Londres, acha que, de forma geral, a característica fundamental para se tornar um colecionador é, obviamente, ter interesse em arte, mas saber que é necessário se manter em constante estado de aprendizado. Ter um genuíno prazer em pesquisar e estudar cada vez mais sobre arte em geral, e especificamente sobre os artistas que despertem seu interesse. Já para ter sucesso em feiras como a Frieze London e Masters, a especialista dá a dica: “É importante que o colecionador em potencial comece a criar uma rede de contatos com galerias que representem artistas que, de alguma forma, captem sua atenção e afeição. Mas também pesquisar quais outros diferentes artistas essas galerias estão exibindo. Feiras como estas são uma excelente oportunidade para fazer esses contatos com galeristas e descobrir, por exemplo, que duas galerias distintas podem apresentar um mesmo artista, mas com focos em diferentes períodos ou tipos específicos de trabalho dele.  Dessa forma, o colecionador começa a ter um entendimento mais amplo sobre aquele determinado artista para melhor decidir como criar a identidade de sua própria coleção”. Já o editor de artes visuais e crítico de arte da Londonist, Tabish Khan, é mais pragmático: “ Acredito que a maioria dos colecionadores já fez seu dever de casa e, muito provavelmente, também eles foram contatados pelas galerias participantes antes do início das feiras. Desta forma, eles sabem quais estandes devem priorizar para fazer suas aquisições mais importantes. Claro que sempre podem acontecer compras impulsivas por simplesmente caminhar pela feira, mas uma estrutura com mais de 100 galerias é demais para digerir em apenas poucos dias”.

Entre os corredores da feira, podia se ouvir o burburinho sobre vendas milionárias para quem já coleciona feito gente grande. Normalmente, informações sobre colecionadores e até mesmo valores das obras vendidas são mantidas em sigilo pelas galerias, o que aguça ainda mais a curiosidade sobre esse mercado de somas astronômicas. Na Frieze London, circulou extra-oficialmente a notícia de que uma obra do artista Enrico Castellani foi negociada por meio milhão de libras, mais de três milhões de reais. Mas esse valor está muito aquém de obras e objetos antigos de uma galeria na feira vizinha, na Masters. Rumores dão conta de que a cifra da venda de uma joia da Les Enluminures, com galerias em Chicago e Nova Iorque, bateu os  três milhões de euros, mais de 13 milhões de reais, no câmbio de hoje. Sandra Hindman, proprietária da Les Enluminures, confirmou que os negócios do estande na feira estavam a todo vapor. Foram vendidos manuscritos, miniaturas e anéis, tanto para clientes privados quanto para instituições, oriundos de seis países, abrangendo quatro continentes. Sobre o suposto valor da venda da joia, Hindman não fez qualquer comentário. Já sobre o manuscrito iluminista San Sisto Choirbook, limitou-se a responder que o valor de mercado estava fixado em 950 mil dólares  ou 1,7 milhão de reais. 

Imagens Divulgação

Imagens Divulgação


Parque de Esculturas

O Frieze Sculpture Park 2015 brindou os visitantes do Regent’s Park com 16 esculturas, entre novas e históricas, posicionadas estrategicamente entre as duas feiras. A seleção foi feita por uma das curadoras da Frieze deste ano, Clare Liley, diretora de Programa da Yorkshire Sculpture Park. Pelo terceiro ano consecutivo, o Art Fund, um programa nacional de arrecadação de fundos para as artes na Inglaterra, desenvolveu um aplicativo dedicado ao Sculpture Park. Por meio do Frieze Sculpture Guide, qualquer pessoa podia ter acesso às fotos e informações detalhadas das esculturas, além de um áudio numa espécie de tour virtual com a própria curadora, Clare Liley. Já a novidade deste ano é que sete das atuais esculturas irão permanecer por mais 3 meses, até janeiro de 2016. Londrinos e turistas terão a oportunidade de apreciar por mais tempo obras de artistas internacionalmente consagrados num espaço aberto e público. Para baixar o aplicativo, que é gratuito, basta entrar na Apple Store.

Frieze Sculpture Park 2015

Frieze Sculpture Park 2015

 

Explosão de Arte

As feiras chegam ao fim, mas a importância delas na cena cultural inglesa vai muito além dos portões do Regent’s Park. Segundo Tabish Khan, a vantagem principal da duas feiras é exatamente o fato de que elas são realizadas em Londres, uma das cidades mais efervescentes no mundo quando o assunto é arte. Isso se aplica igualmente quando se pensa em galerias comerciais ou em grandes instituições internacionais como o National Gallery e o British Museum. “Isso significa que é muito fácil para o resto da cena de arte de Londres se organizar em torno das feiras. E esta Frieze Week tem sido intensa com outras seis feiras de arte acontecendo, novas exposições em muitas das principais galerias e diversas outras mostrando seus artistas mais relevantes. Gostando ou não da Frieze, toda a cidade teve uma explosão de arte e todos os benefícios a partir dela - tanto para os turistas quanto para a população local”, conclui Khan.

Frieze Sculpture Park 2015

Frieze Sculpture Park 2015


LEIA MAIS 

Frieze Talks – Uma série diária de conversas, palestras e painéis com vários assuntos debatidos no espaço Auditorium. Para Gregor Muir, diretor executivo do Institute of Contemporary Arts (ICA), Londres, e um dos curadores do programa, “ O Frieze Talks deste ano mistura radical dissidência com foco numa prática artística emergente”. Essa visão se concretiza na vida e obra de duas das várias palestrantes convidadas. A artista e ativista cubana Tania Bruguera abriu os encontros do Talks, fazendo a primeira aparição pública no Reino Unido após o período em que esteve presa pelas autoridades cubanas. Já no último dia do programa foi a vez da estilista e ativista Vivienne Westwood, que abordou a evolução das relações entre a arte e a sua prática, e falou também do seu compromisso com o ativismo ambiental e social.


Frieze Artist Award – A vencedora da premiação deste ano, que deve sempre submeter um projeto a ser especialmente criado e montado na Frieze, foi a jovem artista norte-americana Rachel Rose, de 29 anos. A obra foi uma reprodução, em escala reduzida, da estrutura e do design da própria tenda da feira. Dentro dela, por meio de efeitos de som e iluminação, os visitantes podiam ter uma experiência das frequências sonoras e visuais dos sentidos dos animais que habitam o Regent’s Park. Quem quiser conhecer melhor o trabalho da artista, pode ir ao Serpentine Gallery, onde Rose está com uma exposição solo até 8 de novembro deste ano.