Casa de Criadores #5

Texto por Roberta Maria de Padua @bta_maria
Fotos por João Roma @joao_roma

O último dia da Casa de Criadores foi repleto de surpresas. Com nomes como os de Tarcísio Brandão, Cem Freio por Apolinário, Heloisa Faria, Alê Brito, Fernando Cozendey e Rafael Varandas para Hangar 33. Não havia como ser por menos.

Longas estradas e paisagens desérticas estavam explicitamente visíveis na cartela de cores de Heloísa Faria que se inspirou no universo onírico de David Lynch com uma pitada da persona de Geórgia O’keef, artista cujo a qual Heloísa tem certo apreço. Além dos casacos amplos, jeans e tecidos em patchwork a estilista trabalha também com tecidos de roupas vintage, resgatando uma característica de seu trabalho no início da carreira.

Formas desse universo onírico estão presentes também nos acessórios feitos em parceria com o estúdio Iracema que acrescentou “ pérolas ao deserto dessa mulher”- disse Heloísa.

Ale Brito trouxe uma coleção que explora o mood esportivo com roupagem industrial e urbana. Para esta temporada, o estilista aposta em looks inspirados em uniformes olímpicos, combinados a elementos da estética dos anos 1990 e início dos anos 2000. A alfaiataria ganha destaque com trench coats e jaquetas que dão peso ao visual atlético.

Já o estilista Tarcísio Brandão apresentou, em seu vídeo desfile, um exército de nômades digitais, com armaduras que mesclam utilitarismo com tecnologia . Sob modelagem oversized e minimalista, adicionada a texturas que remetem a biometria digital.

Rafael Varandas, que desfila pela primeira vez sob direção criativa da Hangar 33, traz para sua primeira coleção dentro da marca peças inspiradas na aviação utilizando de elementos que teriam alguma funcionalidade em campo de batalha.

Cozendey literalmente desabrocha na passarela sobre um campo de flores. A coleção que começa austera em macacões pretos carregados por ilhos, se desdobra em rosas estampadas seguidas por uma explosão de cores e tecidos metalizados. O estilista que entra na passarela sob a persona de uma Drag queen, nomeada posteriormente por seus admiradores como Cozendeuza, disse que a coleção trata-se de um relacionamento abusivo vivido por ele, o sofrimento da separação e o desabrochar da libertação. Afirmando sua entrada enquanto Drag, como um manifesto contra a opressão sofrida.

Surpreendidos pela performance ao vivo da rapper Lay durante apresentação do desfile da marca Cem Freio, assinada por Apolinário, não só os espectadores como o backstage foi a loucura. Apolinário que, muito gentil parou seus afazeres para me conceder uma entrevista. Conta que sua coleção trata-se de um resgate a raízes e uma aproximação de cada indivíduo a suas próprias verdades "fomentar essas verdade absolutas (...) tentar estar o mais próximo da gente, tanto de estruturas, quanto do que somos hoje e podemos criar para a próxima, sabe?! são essas dialéticas de nossa vivência que criam o que nós somos”. Por meio de peças modulares e uma cartela que contém os extremos das cores, o preto e o branco, características de seu trabalho, o estilista afirma “Eu não quero vestir as pessoas. Eu quero criar ferramentas para as pessoas se vestirem.(...) criar dinâmicas de vestuário".

O desfile que contava com beleza assinada por Mel Freese, lançou na passarela “rainhas africanas” ( inspiração de sua beleza), tornando-se uma festa que mais parecia, segundo o DJ Rafael Balera “o Victoria's Secret da favela”.