FashTech London Summit

Evento discute como moda e tecnologia devem caminhar cada vez mais juntas.

Texto: Valeria Bravo Maynard

 

“Londres é a capital da moda e  tecnologia”.

A frase é atribuída a ninguém menos que Dame Natalie Massenet, a poderosa fundadora do império do varejo de luxo digital, Net-a-Porter. Hoje, ela ocupa o cargo de presidente do British Fashion Council (BFC). Se a cidade inglesa merece ou não o ambicioso título, é assunto para ser discutido entre os especialistas das duas áreas. E, de 13 a 15 de abril, foi exatamente isso que uma turma hypada fez ao se deslocar para a parte leste da cidade, numa área industrial em Shadwell. Um galpão foi o palco escolhido para os debates sobre os atuais desafios e as possibilidades de interseção entre os universos da moda e da tecnologia. A FashTech reuniu mais de 300 pessoas, entre profissionais e empresários de moda, de tecnologia, de publicidade, investidores, mídia especializada e empreendedores. Ao todo, 60 palestrantes se revezaram numa agenda composta por 13 painéis de discussões, oito apresentações, um estudo de caso, um workshop, além de expositores exibindo novos serviços e produtos. A iniciativa contou com a parceria da Condé Nast Digital.

No salão principal, especialistas e os principais players do mercado abordaram desde como as marcas de luxo ainda precisam abraçar a questão da comercialização dos seus produtos online, passando por inovações na fabricação de tecidos inteligentes, impressões em 3D, uso de realidade virtual para incrementar as vendas do varejo, nanotecnologia, estratégias de marketing usando o poder de mobilização das mídias sociais, entre outros.

Um dos pontos altos do evento foi a apresentação de Deborah Johnson, diretora executiva do Instituto Pratt / Brooklyn Fashion and Design Accelerator, intitulada, em tradução livre, “Será o próximo Alexander McQueen um biólogo?”. A especialista apresentou exemplos de como a biologia e a nanotecnologia estão redesenhando o futuro da moda. Deborah apontou ainda as inovações científicas que já estão reinventado não somente os materiais, mas também as funções e as propriedades das peças que entrarão no nosso guarda-roupa. Segundo ela, os tecidos poderão ser hidrofóbicos ou dispor de um mecanismo anti-lama. Poderão até ter aplicação medicinal, enviando dados sobre a saúde geral do nosso corpo, ou reduzindo a quantidade de bactérias, ou ainda auxiliando no processo de cicatrização da pele. Deborah falou ainda sobre tecidos feitos a partir de plantas geneticamente modificadas e de couro criado em laboratório. No fim, previu que "daqui a dez anos, 10% das roupas serão conectadas, de alguma forma, a nuvens da internet".

Outra apresentação que agitou a plateia foi a do chefe de criação da Paper Magazine, Drew Elliot, que revelou detalhes sobre a famosa e polêmica estratégia que colocou na capa, nua, a rainha dos reality shows e das redes sociais Kim Kardashian, em 2014.  A ousadia, que levou nove meses para ser planejada, rendeu bons frutos: a Paper ganhou uma inédita exposição global, atraindo o impressionante número de 50 milhões de visitantes ao site da publicação. Isso sem falar no burburinho nas redes sociais, onde todos comentavam se ela, de fato, teria ou não cumprido a missão de quebrar a internet, além da avalanche de memes criados para satirizar a imagem original. No dia do lançamento, a hashtag #breaktheinternet foi exaustivamente usada e a socialite foi a campeã de buscas no Google e trending topic também no Twitter, Facebook e Instagram.

Quando se fala em tecnologia na moda, impossível não pensarmos no ambiente de varejo e nas plataformas de internet, mantidos ainda como os principais focos pelo mercado. Nesse contexto, segundo o debate que tomou conta do "Mais luxo no espaço digital. Agora", em tradução livre, a conclusão é de que ainda há uma lacuna e um extenso caminho a ser trilhado por esse nicho, especialmente no que diz respeito a investimentos em e-commerce. Para os especialistas, muitas marcas de luxo tradicionais ainda não atuam de forma forte e consistente no on line, e correm o risco de serem ultrapassadas por marcas mais novas e mais ágeis. Zoe Patoff, diretor sênior digital da empresa de relações públicas internacional Karla Otto, advertiu que as casas de moda de luxo podem pagar um preço alto por "entrarem na festa tão tarde". A análise de Patoff é que esse segmento "tem um trabalho difícil a fazer" para conquistar e fidelizar clientes, uma vez que eles já acostumados a comprar os mesmos produtos em outros portais,  como o Net-a-Porter e sites multimarcas. Já Lubna Keawpanna, co-fundadora e diretora criativa da agência Smack, pondera que "compreensivelmente, é difícil para as marcas de luxo darem esse passo, considerando que o ethos dessas empresas tem sido sempre a de serem exclusivas. E a esfera digital, ao contrário, é tudo sobre ser inclusivo, é para todos." Dados apresentados no painel apontam que, enquanto os players de moda de luxo estão perdendo espaço no mundo digital, marcas menores estão saindo na frente. "Embora apenas 7% das compras sejam feitas on-line, 75% delas são influenciadas por, pelo menos, um meio de contato digital", informou Pia Stanchina, gerente de Indústria, Aceleração Digital em Luxo, Moda e Beleza no Google. "As marcas mais jovens podem ser mais ágeis nesse espaço e estão fazendo isso de forma mais divertida." 

No salão de exposições do evento, inovação também era a palavra-chave para definir os serviços e produtos levados por empresas iniciantes. Um exemplo é o Mode for Me, uma espécie de crowdfunding (ou financiamento colaborativo, em tradução livre), para financiar a produção de estilistas de moda emergentes. A proposta da Mode for Me é oferecer aos designers uma plataforma livre de risco, onde eles podem mostrar suas criações. Assim,  quando determinadas peças apresentadas no site alcançam, dentro de um prazo determinado, o interesse de um número suficiente de consumidores, o estilista recebe o aval para ir em frente com a produção dos itens. Gigi Etienne, co-fundadora da empresa, explica que dessa forma os benefícios para o estilista vão além da obtenção dos fundos para a produção das suas criações. “Eles podem testar a demanda por seus itens, verificando o que tem mais aceitação no mercado, e também recebem uma ampla exposição para a sua própria marca”. As peças apresentadas são selecionadas através de uma curadoria totalmente exclusiva para a Made for Me. Gigi aponta ainda uma outra vantagem da plataforma: “Essencialmente removemos do processo o papel do intermediário (o revendedor). Dessa forma, todos os produtos são oferecidos aos clientes a preços de pré-venda”.

 

FashTech, uma nova plataforma

Alex Semenzato. Foto: Joe Baakat

Alex Semenzato. Foto: Joe Baakat

Com a expertise de quem já realizou, desde 2014, 21 encontros nas cidades de Londres, Nova York e São Francisco, Alex Semenzato, fundador e CEO da FashTech, tem ambições de consolidar o papel de referência da empresa quando o assunto é moda/tecnologia. “Eu realmente vejo como uma oportunidade a criação desta plataforma como intersecção entre moda e tecnologia, reunindo no mesmo espaço marcas e varejistas, juntamente com pessoas de perfis e interesses semelhantes, e também tecnologias emergentes. Deste modo, as pessoas podem aprender umas com as outras, compreender qual é o coração da marca, o que a tecnologia fornece para esse mercado e tudo isso serve para criar um ambiente em que podemos acelerar as inovações em conjunto”. Segundo Semenzato, o foco é tornar o FashTech no “destino global e o eixo dessa comunidade no que diz respeito a recursos de talentos, pesquisa de informação, banco de análises das tendências de mercado nas necessidades das indústrias de moda e tecnologia”. O próximo FashTech deve acontecer em Nova York, em outubro, e Semenzato planeja ainda um evento de um dia em Londres, possivelmente em dezembro.