_o silêncio que perturba.

Texto: Anthonio Andreazza / Foto: Lucas Bortolato

Uma coisa que sempre me incomodou foi o fato de nós não conseguirmos deixar de fazer comentários diante de um silêncio. Permitir-se sentir é sempre um desafio, mas, além disso, aceitar que podemos ser influenciados é sempre uma pontada no ego.

Ao assistir  a um conteúdo denso, que requer muita reflexão, o desafio do espectador é deixar-se ser conduzido pela produção. Seja um filme, um episódio, um show ou qualquer coisa que requeira uma concentração e traga uma experiência. O distanciamento causado pelos comentários não nos permite sentir, principalmente quando ironizamos a experiência. Ao invés de imergirmos e nos deixarmos ser conduzidos, nós repulsamos esse sentimento que mexe com nossos esôfagos.

Tal ausência faz parte da vida, pois todos já tivemos diversos encontros nos quais o silêncio não foi nada confortável. A partir de uma experiência desagradável onde não permitimos nos abrir para um estranho, ou não somos genuínos conosco mesmos, a ausência é perturbadora. Não sabemos o que está acontecendo nem interiormente nem no outro. Isso traz uma curiosidade imensa a todos, uma curiosidade revertida em ansiedade pois os elementos, estrategicamente pensados ou que vem pelo acaso, nos fazem sentir.

O comentário é uma válvula de escape para evitarmos saber que estamos sendo influenciados e nos distanciarmos do conteúdo. Acredito que isso não seja um reflexo das redes sociais - poderíamos imaginar que fosse - mas sim um recurso, quase como um instinto humano, para não se envolver. A vida é muito intensa, mas se nos permitirmos sentir exatamente tal intensidade, podemos nos fragilizar e quem sabe até quebrar. O medo desse ato, que leva à transformação, é maior que o desejo em si por mudanças, muitas vezes.

Assim vivemos, nos distanciando dos silêncios, nos distanciando de um envolvimento transformador, pois temos aversão à mudança. Buscamos uma estabilidade inexistente e, se permitirmos a quebra desta ideia, não teremos o controle de quem somos ou o que fazemos. Partindo de experiências de nossas vidas, refletidas no conteúdo com o qual nos envolvemos, evitamos sentir. Convido-os todos a apreciar esses silêncios. Sentirmos as borboletas em nossos estômagos. Seja bolado por um artista ou meramente uma coincidência de nossos cotidianos. Viva essa ausência e deixe-se transformar.