Da Mudança

Texto: Gabriela Gaia Meirelles / Foto: Juliana Rocha

O que antes era mar virou asfalto: concreto, cimento, janelas sujas, vidraças empoeiradas, persianas descabeladas, árvores poucas e tímidas contrastando com o pastel dos tons das tardes de Copacabana. Uma gaivota sobrevoa o térreo do prédio tímido, primo bastardo, onde me encontro. Pombos pela praça cheia de lixo no chão. Velhas de pernas dilatadas, muletas capengas, óculos tortos na ponta dos narizes porosos. Vidas entre paredes. Quadrados e mais quadrados. Em cada um, uma promessa sinuosa de arquejo, um quê de ser no  enclausuramento cotidiano, nos meandros dos corredores decadentes dos prédios quarto-e-sala de Copacabana, Copacabana puta-suja, Copacabana arrastão na esquina do Arpoador, Copacabana assalto no ônibus em frente ao Palace.

Copacabana, minha amada, te desejei por completo. Te bebi nas veias, te suguei nos cantos, te enchi de graça, te pintei de azul maresia, te vi de cima, do alto da cobertura do prédio em que jurei morar para sempre, mas sequer comprei: me faltou coragem. E mesmo que a tivesse, me faltaria dinheiro. Copacabana, sua vadia, te amei por completo. Te pensei eterna, te desenhei filha pródiga, te fiz meu berço num despertar repentino. Cheguei mesmo a te varrer com as rodas de borracha, e te mandar beijos do fundo do meu coração, a te suspirar nas idas e vindas da maré consonante com meu estado de espírito ora vago, ora vultuoso.

Copacabana, te fiz minha, te possui por inteiro num ínterim de loucura, acesso ébrio de felicidade mundana. Mas tu me arrastaste para um mar de prédios comerciais, Copacabana, e bem sabes tu, ou deverias, que meu coração franzino é tolo, é tuberculoso, precisa de ar fresco cheio de sal na ponta da língua.

Me atirastes frente ao mar de cimento, Copacabana, prendeste-me num quadrado de paredes brancas e fechadura emperrada, e pra mim sobraram os badalos da Igreja vazia, a sirene da ambulância que berra na rua, o choro frio do saxofonista da esquina, o carrinho de pipoca com bacon que já não anda pois não há roda, e os meninos que correm de um lado para o outro com sangue nos olhos, sangue de reparação.

Copacabana, meu coração dói ao ver sua traição.