Raspas e restos interessam

Texto: Roberta Graham / Fotos: André Marcelino

O lixo, evidência viva do nosso consumo excessivo, é sintoma de um dos maiores problemas da atualidade. Quando jogamos um objeto fora, esquecemos que não existe fora - afinal - ainda não inventaram uma maneira de despachar nossos restos para a estratosfera. A maior parte do lixo produzido no planeta não é sequer reciclado, apenas compactado e enterrado em grandes terrenos vazios. Não parece uma solução muito inteligente, é o mesmo princípio de cobrir com concreto a área de um acidente nuclear. Não conseguimos enxergar o perigo, o que não significa que ele não esteja lá. 

O artista plástico Eric Fully, defendendo a idéia da sustentabilidade. criou a escultura de uma Madona com o menino Jesus de 12 metros de altura, produzida quase que inteiramente com lixo. A obra utilizou 5 mil garrafas pet, pesando 350 quilos, e está exposta nas areias da praia de Botafogo. O projeto é inspirado no conceito do escultor holandês Peter Smith e é apoiado pela empresa holandesa Dopper. Quase todo o material utilizado na criação da escultura é reciclado, sendo a única exceção a estrutura de ferro que sustenta as formas. 

A tecnologia, usada em prol da sustentabilidade, foi determinante para que o resultado buscado pelo artista fosse alcançado - o projeto contou com impressoras 3D que moldaram os contornos da Madona, trabalhando em cima do plástico reciclado. A intenção imagética nos faz pensar que, alimentado com resíduos tóxicos, o pequeno Jesus deitado no seio de sua mãe jamais terá a capacidade de transformar-se no Cristo Redentor, que avista de cima a Baía de Guanabara- certamente de olho no futuro que daremos para as crianças de carne e osso que, sabendo ou não, são alimentadas da mesma forma.