Feito para não durar

Texto: Roberta Graham

Os monges tibetanos são famosos por capturar o conceito da impermanência em seus trabalhos com as mandalas. Coloridas, belas mas feitas de areia, são criadas apenas para receberem um sopro final após sua conclusão, mandando pelos ares meses de trabalho dedicado. Assim é a vida e a arte, que a imita. Kim Keever, um engenheiro de formação, passou alguns verões de sua juventude estagiando na NASA. Foi apenas sob a influência da Nova York da década de 70, no entanto - cercado por Warhol e sua turma - que descobriu-se artista. Ainda assim, levou longos dez anos trabalhando com as telas tradicionais antes de encontrar sua verdadeira vocação. 

Meio cientista, meio artista plástico - Keeves chegou à conclusão que a impermanência fazia parte do conceito de beleza que desejava retratar. Quando ganhou dos amigos um aquário de presente, a solução de seus conflitos visuais começou a ser desenhada. Após alguns anos de evolução de seu processo, Kim desenvolveu o método de fotografar o movimento que a tinta faz ao entrar em contato com 20 de galões de água. A inspiração veio das antigas memórias de seu pai, que dissolvia leite condensado em um copo cheio d’água para exemplificar as leis da hidro mecânica. Após entrar em contato com a água, os pigmentos levam cerca de 20 minutos para dissolver. Nesta janela temporal, o artista capta as imagens que lembram bombas de fumaça colorida e prepara-se para limpar seu aquário e começar tudo outra vez. Sobre o fato de não conseguir guardar o trabalho original, ele admite não ter apegos. Afinal, é justamente a iminência do fim que torna seus resultados tão encantadores. Em uma frase, ele define sua filosofia: “não poderia criar o que o acaso me dá”.