O caminho se faz ao andar.

Texto: Tatiana Vieira

Neste momento estou na China, Yantai. A 11h de futuro do Brasil. Gosto dessa relação de distância-tempo-espaço. Respiro. Fuso. Trabalho remoto. Se estamos todos juntos, porém espalhados, então faz todo sentido migrarmos o tempo todo e contribuirmos de alguma forma em outra parte, somar, trocar. Acumular não vale a pena. Sempre digo: apenas o que couber na mochila e no coração.

O projeto não era projeto desde sempre. Pensado. Daquelas histórias de jogar tudo pro alto e mudar de vida. Não foi nada disso. Penso que eu sempre segui meus pensamentos com calma, no sentido de tudo me parecer natural, dentro de uma agitação mental constante, um grito de que as coisas não poderiam ter uma fórmula, predestinação, um caminho. "O caminho se faz ao andar", assim sempre segui. Adoro adiar a chegada, o fim. Amo janelas, a paisagem, o até lá. Sempre fiz cursos nas mais diversas áreas e, comumente diziam que eu era doida. Ainda dizem. Perdemos muito a compreensão da polivalência e de que as ciências precisam se estreitar e se ajudar sempre às outras áreas do conhecimento. Competimos, batemos cabeça. Enfraquecemos nossos dias assim.

Meu estúdio, o Etérea Design foi criado no final de 2008 e, mesmo sem certezas, o nome me ocorreu fluido e a atmosfera do trabalho remoto já estava lá - sempre fazendo freelas para diversos lugares, ainda no Rio, depois Belo Horizonte, Manaus, Portugal, Austrália, Alemanha, Inglaterra, contatos com China, Estados Unidos e a coisa foi caminhando, de passinho, como falo. No tempo que tem que ser.

As ilustrações são algo simples, pra eu marcar algo novo que vi, aprendi, estou a compreender, a sorrir. Adoro misturar os sons dos diversos idiomas e buscar minha própria lógica, perguntar para que serve uma determinada coisa ou tentar saber o porquê delas fazerem algo de determinado jeito.

Minha relação com a Alemanha começa na infância, quando esbarrei com Anne Frank e vi-me em seu diário, mas nunca tive coragem de terminar o livro, ainda na pré-adolescência. Achava que seria como terminar a amizade. Ainda tenho esse sentimento quando acabo um livro, mas os termino. Hoje sei que os livros não acabam, nós que acabamos. É outra relação.

Com a mudança pra Köln, Alemanha, anotar, colecionar, que sempre me foi muito natural, ficou ainda mais intenso. Passei a ler ainda mais textos na área de Filosofia, Psicologia, Educação, História e Antropologia. Fui confirmando ideias soltas minhas, alinhando o que ainda estava perdido e ficando muito feliz a cada detalhe. Refiz pensamentos.

As Viagens de Süssie é uma caminho que encontrei, a partir destas anotações, a fim de contar detalhes destas viagens da minha cabeça de maneira doce, tal qual seu nome, que significa doce em alemão. Sua olhar e capacidade de se alegrar com detalhes é uma forma de inspirar e lembrar que tudo é belo e interessante. Basta sabermos olhar. E que podemos ser o que quisermos. O foco não é viajar, mas a viagem em si mesmo, nas percepções do dia a dia. 

O projeto faz parte da ideia "O Mundo é O Meu Quintal", que está em processo de fazer parte de uma pequena exposição no Rio de Janeiro para inspirar jovens da Zona Oeste, região de onde vim e de virar livrinho daqui a mais alguns continentes.

É comum as pessoas me perguntarem o que é ser feliz. Ou que sou feliz por viajar. Uma coisa que aprendi em um turning point em minha vida foi: viver a vida com poesia. Tento. Não digo que é simples. Mas precisamos buscar essa leveza para encarar as pequenas coisas rotineiras, encarar o medo, o engarrafamento, o que for. A mim vale uma foto de pé em um lugar comum, pois todo dia é uma conquista. E estar vivo, conquista é.