Dois por um.

Texto: Débora Cilira

Alex Prager

Alex Prager

O consumo excessivo de moda. 

“Nossa, que linda tua sapatilha! Paguei vinte dinheiros, acredita? Comprei três pares!”

Adoramos comprar algo bom e muito barato, né?

Melhor ainda é quando as pessoas olham e pensam que custou muito mais e nós, cheios de prazer, abrimos a boca para dizer que custou bem pouco e que ainda compramos vários. Isso sim é felicidade.

Só que não, isso não é felicidade!

Alguém aí já parou pra pensar como essas cadeias de fast fashion conseguem encher suas araras a cada semana com algo novo, bom, bonito e por um custo tão baixo? Pois é, eu resolvi fazer isso. E comecei olhando as etiquetas dos meus sapatos e das minhas roupas. Descobri que em muitas delas está escrito: Bangladesh, Vietnã... Então fui para internet entender isso. E aí descobri um documentário chamado The True Cost. Fiquei chocada com o que vi. Pra quem nunca ouviu falar, trata-se de um filme produzido com o objetivo de mostrar o impacto da moda na vida das pessoas, no planeta e a realidade em que vivem os trabalhadores que tornam possível que as peças de fast fashion cheguem nas nossas mãos por um valor tão baixo.

Então eu vi quem realmente está pagando o preço.

Grande parte das marcas americanas e europeias de fast fashion contratam esses trabalhadores. O problema é que não são oferecidas condições dignas de trabalho à essas pessoas. No documentário, eles entrevistam uma das mulheres que trabalham numa dessas fábricas, onde os funcionários estão reivindicando um salário mensal de 160 dólares! Confesso que eu me senti muito mal por pensar que enquanto eu estava feliz consumindo esses produtos, existiam e ainda existem pessoas sofrendo na fabricação deles. 

Mas o objetivo desse texto não é só alertar para a injustiça que acontece com esses seres humanos e sim dizer que esse mal é causado pela cultura maluca na qual estamos todos inseridos. Sabe aquela ilusão de que somos mais ricos porque temos o poder da compra? Então, essa é a mentira que levam muitos de nós a ter esse comportamento consumista fora de controle.

A mídia em geral cria esse desejo e nos faz crer que seremos mais felizes vestindo a nova tendência. Traduzindo: toda essa cultura de incentivo ao consumo é o que de fato gera a necessidade das fast fashion em trazer tantas novidades tão rapidamente. E por fim eles sim estão enriquecendo, não eu, nem você. Precisamos parar com esse consumismo além do limite. Não podemos ser escravos e deixar que a nova tendência dite quem somos. Até porque nem tudo que aparece, de fato, tem alguma relação com a nossa identidade. Temos que pensar na nossa essência e no que está nos levando a consumir de maneira tão descontrolada.

Ah, e só pra avisar, a economia mundial não vai deixar de girar por conta disso. Todo dia tem criança nascendo, todo dia tem adolescente crescendo e trocando o tamanho da roupa, todo ano temos quatro estações, ou seja, vamos continuar consumindo sempre. Só precisamos encontrar o equilíbrio nisso. Por isso eu falo que o problema é muito maior. Na verdade, trata-se de uma mudança de cultura, algo muito além. Penso que vai levar muito tempo para que essa ideia de fato penetre na mente de todos, até que a maioria abra os olhos para a realidade.

Para começar, eu tenho uma sugestão. Aliás é um exercício que eu faço, e aconselho. Abra teu closet, veja tudo o que você tem, veja se de fato todas aquelas peças transmitem o que você quer. Tenha consciência da imagem que quer passar, e saia para consumir com isso muito claro! Faça uma lista do que realmente está fazendo falta. Eu garanto que a lista é bem menor do que você pensa. Enfim, leia, busque informação e encontre tua identidade. Ao comprar, saiba o por que aquela peça está entrando no teu closet. E não se preocupe se amanhã algo será lançado, porque isso vai acontecer, e não necessariamente é o que precisa vestir o teu corpo.