Derrubando paredes.

Entrevista: Bruna Sussekind

Texto: Rafaela Mattera

Edição: Roberta Graham

Fotos: Bruna Sussekind (P&B) e João Roma (coloridas)

Andrew Melo, Julliana Araújo e Natasha Ribas

Andrew Melo, Julliana Araújo e Natasha Ribas

Natasha, Julliana e Andrew são o trio criador por trás da RMA-3, uma marca de moda conceitual, nascida a partir do projeto Casa Geração, no Vidigal. Os alunos, que cursam respectivamente as faculdades de design de moda da PUC-Rio e da Estácio, buscam uma moda com mais substância, passando longe de conceitos que inundam o mercado atual como o fast fashion. Ali, todos os passos são milimetricamente pensados e o conceito por trás de coleção é longamente trabalhado. A marca apresentou sua mais nova coleção, Paredes, num desfile intimista e a ‘CAUSE MAGAZINE esteve lá para saber de mais detalhes. 

‘CAUSE Magazine: Gostaríamos de saber um pouco mais sobre o nascimento e o desenvolvimento do projeto RMA-3. 

Natasha: Gastamos cerca de 7 meses no processo de conceitualização do projeto para a primeira coleção. Nesta primeira etapa, fomos entendendo outras formas com as quais poderíamos construir uma peça. Então, fizemos experimentações com papel, massinha, recortes, a própria tinta preparada pela Ju. Passamos muito tempo conceituando, este foi nosso primeiro contato com outras formas, sem ser um croqui padrão ou uma inspiração de imagens. Fizemos de outra forma. 

Começamos o projeto através da Casa Geração (Vidigal) e depois assumimos ele para nós. Acredito que a minha percepção tenha mudado depois que começamos a trabalhar com a moda de uma outra forma, comecei a analisar mais os desfiles de outras marcas. Hoje, vejo que estávamos buscando meios alternativos de construir uma peça. Então hoje, além do processo de conceito - que eu acho incrível - valorizo muito a concretização das peças e o uso dos materiais: tinta puff, os tratamentos têxteis, as formas que a gente propôs, as costuras para fora. Acredito que nosso futuro será este: estamos pensando na nova coleção e vamos fazer este mesmo processo criativo mais uma vez. Aguardem coisas legais!

AndrewO projeto nasceu como coleção e não como marca, porque nós estávamos focando no processo de descoberta e no contato com a materialidade do trabalho mesmo (tecido, textura, modelagem) e também porque o interesse era fazer aquele trabalho naquele momento, quando você se diz marca as pessoas já esperam uma continuação.  É como se você assumisse um compromisso. Essa é a nossa primeira coleção juntos, nós não sabíamos se teríamos alguma coisa pra dizer enquanto grupo depois daquilo, hoje já nos entendemos como marca, mas isso parte da nossa vontade de fazer uma segunda coleção.

‘CAUSE: Gostaríamos de conhecer também a perspectiva da Julliana sobre o projeto. Como está sendo esta experiência para você?

Para mim é libertador construir, desenvolver um projeto, uma coleção de moda com seus melhores amigos, que estiveram ao seu lado durante todos os processos de desenvolvimento, de experimentação. O processo foi dividido e construído por todos nós e talvez seja este o nosso diferencial: todos temos domínio sobre qualquer parte da coleção. Eu faço a textura mas a Natasha também já sabe fazer, o Andrew faz a parte de fechamento das peças e ele domina isso. Então, mesmo que não seja a função de cada um, sabemos desenvolvê-las. Isso muda tudo. Através do vestuário, podemos transmitir nosso conceito através do corpo masculino, que não limita. Nossa roupa transita no gênero masculino, ela não é limitadora. Trazer este conceito para o mercado e ver as pessoas usando nossas peças é algo que me marcou muito. 

‘CAUSE: Queremos saber um pouco mais sobre o conceito desta coleção. 

Julliana: O tema da nossa coleção é a parede. O que é parede para cada um, seja ela uma parede mais subjetiva ou mais concreta. Fomos desenvolvendo este conceito ao longo de 6, 7 meses e experimentando com o processo. Cada um de nós veio trazendo seus próprios conceitos de paredes mas não pensamos em desenvolver peças com base em nossas visões individuais. Pensamos e desenvolvemos o que, de uma forma subjetiva, era uma imitação espacial ou física e a partir daí fomos desenvolvendo peças para cada tipo de pincelada, cada tipo de acabamento - pensávamos em sobre o que aquela parede representava para nós, o que nos impedia de algo ou nos limitava a fazer alguma coisa. 

AndrewO tema da coleção parte da convêrgencia das nossas vontades, da nossa reflexão sobre nossas vivências, do que nos movimenta e nos incomoda de uma forma mais imediata. Para mim,  é muito legal perceber como apesar de sermos pessoas muito diferentes, conseguimos facilmente encontrar intercessões nos nossos questionamentos individuais. Por isso, o processo de descoberta do tema é tão decisivo pro resultado final quanto o desenvolvimento do tema em si.

‘CAUSE: Qual é a importância de uma marca como a de vocês, que pensa no conceito e não está interessada em fazer um fast fashion?

Julliana: Estamos nos propondo a vestir outra coisa, que vai além do corpo. Não é apenas uma questão de vestimenta e sim uma construção de significados. Quando alguém compra e veste, acaba comprando toda uma experiência. Você compra outra forma de desenvolver e projetar - algo único, singular para você. 

AndrewNossa marca tem um tempo muito próprio de maturação das ideias e de confecção das peças em si, nós fazemos todos os processos juntos tanto a parte de experimentação como a de modelagem e de montagem das peças, tem a nossa mão em tudo. Acho bacana como isso é fortemente ligado ao nosso processo criativo em que nós nos aproximamos do tema de forma bastante pessoal (refletindo sobre nossas experiências e relações). Tudo isso leva tempo, se aproximar das coisas de forma gradual assim. Este processo pra a indústria, de um modo geral,  (tanto na parte criativa quanto na parte de produção mesmo) é bem complicado.

‘CAUSE: Como vocês pretendem impactar o cenário da moda?

Julliana: Esperamos impactar a forma como a moda é desenvolvida e esperamos que este formato seja abraçado por novos estilistas e stylists. É muito complicado quando você chega no mercado com outra proposta de tempo de desenvolvimento. Trabalhamos com a minoria, é difícil bater de frente com a produção efêmera do fast fashion. É melhor focar o olhar no novo espaço que se apresenta no mundo - tem espaço para todo mundo! Para as marcas grandes e consagradas e para quem está chegando sem um olhar de competição. Esperamos que o mercado consiga nos entender e que consigamos refletir sobre estas plataformas.