Afeto.

Por Gabriela Gaia Meirelles

CIDADE: SUBSTANTIVO FEMINO

 

I – VERBO

A cidade me trespassando, três rajadas e já estamos na estação. Os olhares são vãos. O vão é iluminado - cuidado, você está sendo filmado.

Lambe-lambes pela rua.

Grafites sobre os escombros

Desencontros nos cruzamentos

O afeto roda até Recife

A mulher afronta toda a cidade. A mulher coloniza a rua. A mulher num resgate espacial

Os grafites das manas

A escultura da face anônima sobre o cimento cru

A central do Brasil às seis da tarde
A vida invadida pela arte.
Desenhar o rosto das pessoas, montar suas poesias e colar nos postes

A linguagem a favor das mulheres - são armas.

 

Alguém aí tá com vontade de gritar?

 

II – O ADJETIVO

Gostosa. A palavra concreto que me crê objeto e me quer passar por cima. Uma carne em constante exibição. Na esquina, na rua, cuidado se o caminhado for na noite, que o caminho é açoite, açoite pra quem leva buceta, eu disse buceta, não gostou falo de novo. Bu-ce-ta. Pra dentro. Buceta. Escondo. Buceta. Escombro. Pênis. Pê-nis. Péeee-nis. Pra fora. Cidade falocêntrica. Cidade circuncêntrica. Giro na roda da minha anágua esse bando de água esse bando de mar. Esse bando de mar-manjo esse bando de  ma-rujos, tudo sujo, se vejo fujo, fujo com medo que o sinal é de alerta.  Pra quem é essa cidade, em que eu sou oferta?

 

III- O SUBSTANTIVO

Cadê a cidade? O que é a cidade? Cidade, substantivo feminino. Eu-cidade, um corpo disforme, em plena putrefação. Maternidade da Praça XV. Destruição. Pra quem é a cidade, o que é a cidade? O que vejo nessa cidade. Necessidades. Vagão para mulheres. Para mulheres não serem encoxadas. Enxada na mão se vier eu revido eu grito eu não fico eu dou soco, cuzão. Já deu? Dada. Dados: dó de quem deduz que mulher abaixa a cabeça agora eu falo agora eu berro agora eu desterro toda essa lama esse aterro de desilusão.

 

O texto acima faz parte do documentário AFETO, um projeto idealizado pelas estudantes de cinema Gabriela Gaia Meirelles e Tainá Medina que investiga como a arquitetura urbana incide sobre os corpos femininos e porque nós, mulheres, ainda precisamos de espaços delimitados para nos sentirmos seguras. A partir desse entendimento, o filme vai retratar como artistas mulheres vêm ocupando e ressignificando esses espaços que não foram pensados nem por nós nem para nós.

O AFETO é uma produção independente e conta com um financiamento coletivo para se concretizar. Por isso, está rolando uma vaquinha online onde dá pra contribuir para o filme, e juntos começar a pensar cidades mais humanas. Para conhecer mais do projeto, dá pra acessar a página no facebook (https://goo.gl/7Kbp7x) , e pra ajudar na vaquinha é só entrar no link  https://goo.gl/3ojAH2.