Sobre a preguiça.

Texto: Roberta Graham
Fotos: Wouter Maeckelberghe / Ine Savenberg

A sociedade moderna criou, ou multiplicou em escala exponencial, os dramas da nossa existência humana. Onde antes éramos nervosos, estamos à beira do colapso. Tínhamos problemas com a criação dos filhos, com os relacionamentos amorosos, com o convívio com amigos e vizinhos? Pense de novo, amigo, você era feliz e não sabia! Hoje, a tecnologia veio resolver problemas do nosso cotidiano e, muitas vezes, não nos damos conta de que certas questões foram postas em pauta pela própria evolução digital. Ou seja, chegamos num paradoxo similar ao drama dos despachantes numa repartição pública: pagando pela resolução de problemas que foram criados pelo próprio sistema, a fim de vender a solução. 

O ilustrador francês Jean Jullien costuma explorar, em seu trabalho, questões relativas à psiquê e às interações sociais. Sua última mostra, entitulada “FLAT OUT”, lida com uma característica tão humana quanto abominável nos turbulentos dias de hoje: a preguiça. O ócio, considerado por teóricos da comunicação do calibre de Domenico de Masi como parte essencial do processo criativo, foi sendo deixado de lado na sede de produzir cada vez mais, num mundo que pausa e respira cada vez menos. A exposição, que está em cartaz na galeria Drift, na cidade de Ghent - Bélgica, apresenta oito esculturas que representam bonecos de papel, em tamanho real de seres humanos. Cada um deles personifica uma situação típica de letargia, nos fazendo pensar sobre o papel da passividade e do não movimento numa sociedade que nos ameaça constantemente de perder o trem. Para quem estiver de passagem pela Europa, a mostra fica em cartaz até o dia 31 de agosto.