Vamos mais uma?

Texto: Marina Quaresma
Ilustração: Lorenzo Gritti

Eram apenas dezoito horas. Em uma das ruazinhas da Vila Mariana me deparei com uma arquitetura que aludia a uma casa residencial, com dezenas de carros estacionados à porta. Fui entrando, em meio ao jogo, e percebi que eu era uma estranha ali - a tensão a cada lance era dividida com uma espécie de confraternização entre os presentes. Entre rodadas de bebidas e petiscos havia uma atenção focada no jogo. O tempo ia passando. Uma, duas, três horas — não sei ao certo —, mas parecia que a patologia se revelava mais com o passar do tempo, não em todos, mas latente em alguns.

A ludopatia é a congruência e principal preocupação no debate sobre os jogos classificados como “de azar”. A discussão ao entorno dessa condição dá luz às questões de saúde pública e bem-estar social. O protagonismo sobre o quadro psiquiátrico no centro desse tema pretende discutir o indivíduo e sua relação com o ambiente da jogatina. Entre decretos, revogações e discussões, setenta anos se passaram e o debate sobre a legalidade dos jogos não parece estar perto do fim.

De início, busquei penetrar nesse universo na tentativa de exprimir o maior número de experiências que resultassem em um esclarecimento sobre os jogos patológicos — nova nomenclatura para a ludopatia. Em conversa com o psiquiatra Rafael Gois, doutor da UNIFESP (Escola Paulista de Medicina), ele afirmou que é preciso enxergar a doença a partir de um resultado multifatorial que mescla o quadro orgânico com os fatores ambientais. Desse modo é preciso pensar no jogador como “um ser complexo em constante interação com o meio”.

Depois de horas de conversa com o psiquiatra, sentia falta de ver o que acontecia nesse submundo dos jogos.  No meu imaginário, infinitas imagens fantasiosas de cassinos à la Las Vegas vinham à mente, mas não era bem assim. Fui, então, ao que parecia ser uma casa residencial numa ruazinha da Vila Mariana.

Despindo-me de juízo de valores e sem querer julgar o que é correto ou não, passei horas fingindo jogar só para olhar os olhares. Aquilo tudo era montado para aguçar a vontade de permanecer, mas o entretenimento custava caro e alguém precisava pagar a conta!

Aquilo que se apresentava — monótono para mim — era como um orgasmo para quem jogava. A vontade de ganhar e jogar e ganhar e ficar... - “Vamos mais uma? ”, ouvi dizerem. Era inacreditável! O lugar exalava uma ganância que eu não conhecia, não era exatamente pelo dinheiro que se poderia ganhar que o jogo se fazia. Era sobre estar preso naquele universo — quase paralelo — que dava prazer aos participantes.

Entre os destemperos e alegrias da vida, o lugar resetava o mundo lá fora e o foco total era no instante. O tempo tinha outra dinâmica. Existia até suor naquele fanatismo exacerbado, e o prazer vinha com um tom de alteridade para mim. Os sons das maquinetas rodando e a expectativa para cada resultado eram ansiosamente aguardados. Os efeitos que os jogos tinham na mente iam se expressando também através do corpo, dos gestos, e era intenso. Todo aquele sistema parecia se sustentar da agudização do vício, mais do que da inserção de novos participantes.

O limbo entre a legalidade e o embargo não extermina a prática de jogos. Acaba apenas se refletindo em um cruel panorama para os jogadores. Durante as cinco horas que passei inside, “compulsão” foi a palavra-chave. O jogo era tão essencial para eles quanto um copo d’água é para mim.

O debate aponta que mesmo com dados publicados, a patologia é subnotificada no país. A ausência de núcleos de assistência psiquiátrica para dependentes comportamentais ainda é escassa e isso revela um cenário inadequado para cuidar desses pacientes. “Eles precisam de uma abordagem multifatorial”, contou o doutor Gois.

A compulsão por jogos ocupa o terceiro lugar no ranking de compulsões, ficando atrás apenas de álcool e tabaco, de modo que precisa ser pensada dentro da dialética entre o aumento da vulnerabilidade a que a legalização dos jogos submete os indivíduos e a ausência de políticas públicas para cuidar dos pacientes diagnosticados com ludopatia em tempos de proibição.

“A abordagem multifatorial é essencial para quadros de dependência, porém a rede de saúde pública apresenta deficiências para abordar esse tipo de paciente e hoje esse trabalho é realizado apenas dentro dos hospitais universitários. Essa ausência de grupos específicos para cuidar desses pacientes, aliada à legalização iria aumentar o número de casos da doença”, finaliza Gois.