Design e uma mensagem otimista – Vert Shoes

Entrevista e texto: Rafaela Mattera

Largar o emprego e viajar o mundo estudando projetos de sustentabilidade pode soar, de certa forma, utópico. No entanto, a dupla de amigos de infância, François-Ghislain Morillion e Sébastien Kopp, os rostos por trás da Vert, fizeram exatamente isso. Passaram pela Índia, China, África do Sul e Brasil. Se encantaram com a floresta Amazônica, mas se decepcionaram com os projetos estudados durante esta viagem ao redor do mundo. Cruzar os braços diante deste assunto não era uma opção. Assim, decidiram criar a marca.

Vert (em francês, “verde”) é, sem sombra de dúvidas, a mais brasileira das marcas francesas, unindo um olhar contemporâneo com uma mensagem otimista, a da sustentabilidade atrelada ao design.

Em comemoração aos 10 anos de marca, a Vert lançou o modelo V10, na Frey Kalioubi, e a ‘CAUSE MAGAZINE esteve lá para ouvir François contar sobre essa trajetória que une ecologia e moda, dois assuntos que fazem parte do ecossistema da nossa revista.

 

‘CAUSE MAGAZINE: A Vert nasceu de uma inquietação em relação ao mundo, certo? Você pode contar um pouco mais dessa história? 

François-Ghislain Morillion: A Vert nasceu de uma viagem que eu fiz com o meu sócio, que foi um estudo durante 1 ano, uma volta ao mundo, pesquisando sobre projetos de sustentabilidade e a gente se deu conta que muitas empresas consideram a sustentabilidade como algo fora do negócio; continuam fazendo seu empreendimento normal, falam de sustentabilidade como uma algo legal, bacana, mas não dentro do negócio de fato. Então a gente achou que o interessante era realmente pensar um produto com esse olhar da sustentabilidade, social, ambiental, econômico e escolhemos um produto que adoramos. Desde a adolescência a gente é fissurado por tênis, então pensamos em fazer um produto que respeita a natureza, o ser humano. Foi realmente um ponto de partida, uma grande viagem com várias experiências e gente decidiu partir de um tênis, algo com um olhar bem prático. Qual vai ser o material da sola? Onde vai ser fabricado? Qual vai ser o material para fazer o tênis mesmo? E a gente escolheu o Brasil para isso porque tinha tudo para fazer o nosso tênis e inclusive uma certa vontade do brasileiro de explorar novos caminhos, porque a China por exemplo, onde a maioria das pessoas fabricam tênis, não tem essa vontade.

‘CAUSE: Vocês viajaram pela Índia, China, África do Sul e Brasil. Vocês se encantaram pela Amazônia?

François: Vimos um projeto na Amazônia que achamos muito relevante, que não era relacionado com a moda - uma cooperativa de palmito de pupunha - mas se pensar bem é o que estamos fazendo com a borracha: trabalhamos com uma cooperativa que paga um preço bom por ela, para os seringueiros, que através disso valorizam o produto e graças a isso não desmatam, então é um caminho econômico da ecologia. Para resumir: hoje a gente paga pela borracha o dobro do preço convencional, mas em troca disso, o seringueiro mantém a floresta em pé. É um acordo, uma aliança entre nós e eles. A mesma história é o algodão, que por ser orgânico pagamos um preço um pouco maior. É então uma história que começou muito pequena e ano após ano cresceu e que está dando resultados nas comunidades, essa é a parte mais legal.

‘CAUSE: Em poucos anos, a marca passou a ser vendida nos pontos de venda mais descolados do mundo. Quais são seus próximos projetos? 

François: O crescimento foi em 10 anos, crescemos rapidamente, mas se você olhar bem é orgânico, um passo após o outro, ainda somos os donos da nossa empresa, não temos investidor, a gente está crescendo conforme a música, sabe? Hoje temos muita pesquisa de materiais, é isso que eu posso dizer; já lançamos muitos materiais ao longo dos anos e a gente vai surpreender muito nessa questão.

‘CAUSE: Como você entende os problemas ambientais e a sustentabilidade no mundo em que vivemos? 

François: São problemas complexos que não podem ser só considerados do ponto de vista ambiental, porque você tem que considerar que atrás do meio ambiente tem pessoas. Então a nossa maneira de agir é uma maneira social: se um cara na Amazônia está desmatando não é um vilão, é porque ele precisa da terra para ganhar dinheiro, botar comida na mesa e colocar os filhos na escola, na faculdade. É tudo isso que se precisa considerar e, para isso, não há jeito melhor do que se viver a coisa, é uma maneira super humana de se considerar a sustentabilidade.

‘CAUSE: De onde vem a inspiração para o design de novos modelos? 

François: A inspiração vem muito da rua, principalmente. A gente não faz pesquisa de tendências, a gente não compra nada desses estudos prontos, então a nossa inspiração dentro da marca é a rua e aí, para complementar, porque às vezes a gente fica meio seco, fazemos muitas colaborações com artistas, marcas, personalidades que vem enriquecer o nosso dia. A rua e as pessoas que gravitam ao redor da marca e vem engrandecer.

‘CAUSE: Você pode falar um pouco das parcerias e colaborações da Vert no Brasil? 

François: Então, no Brasil a gente faz várias colaborações: com o Derlon, que é um artista plástico; fizemos 4 coleções com o Alexandre Herchcovitch, que foi um grande aprendizado; fizemos várias parcerias com marcas, como a Foxton, aqui no Rio.

‘CAUSE: Sobre o lançamento do novo modelo V10, você pode contar um pouco mais sobre ele?

François: Hoje é o lançamento do V10 que a gente desenvolveu para comemorar os 10 anos da marca e acho que é uma etapa para nós. Um tênis um pouco diferente do que as pessoas estavam acostumadas. É importante surpreender e não fazer sempre do mesmo, é um tênis mais encorpado, tem uma sola maior. Um caminho da marca que está se assumindo como uma marca de sneakers. Os 10 anos representam uma certa maturidade, a gente está pronto para bater de frente com as grandes marcas de tênis.

‘CAUSE: O consumidor brasileiro tem alguma particularidade que precisa ser considerada por vocês? 

François e Cláudio: Como o nosso tênis é fabricado no Brasil, envolve comunidades e fabricação brasileiras, achamos que a nossa marca aqui tem um respaldo um pouco maior do cliente quanto a essa questão da sustentabilidade e vemos isso nas redes sociais. Pela própria questão geográfica, quando a gente fala que a borracha é do Acre, o consumidor brasileiro sabe onde é o estado, ele já foi lá, já conhece a Amazônia. Esse conhecimento regional ajuda bastante a compreensão e identificação, por exemplo a questão do algodão orgânico do Nordeste, o pessoal sabe da questão da seca que o sertão tem e quanto isso pode impactar na vida de alguém, é mais fácil comunicar o brasileiro por ele estar dentro do país.

‘CAUSE: Quais são as maiores tendências e lançamentos da marca no momento? 

François: A gente fez uma parceria com uma artista francesa que tem uma marca de roupas, pequena super artística, que a Kate Moss usa, tem uma clientela top. Ela veio passar uma temporada no Rio para se inspirar e ela fez um desenho, tudo é pintado a mão no trabalho que ela faz. Ela desenhou umas araras típicas do Rio para um tênis de couro com essa estampa digital. Ele irá ser lançado em parceria com OQVestir, dia 13 de setembro, no site deles.