ALWAYS REMEMBER WE ARE ANIMALS TOO!

Texto por Leticia Cazarré

Entrevista e Imagens por Valéria Bravo Maynard

Nem só de tendências, cores, flashes e frenesi de fotógrafos e fashionistas é feita uma semana de moda. Uma das maiores e mais poderosas do mundo, a disputada London Fashion Week pode ser considerada também a mais polêmica. No passado, o nome por trás das principais controvérsias era Alexandre McQueen, hoje reconhecido como um verdadeiro gênio criativo, à frente de seu tempo. Há alguns anos surge ali também uma figura feminina, saída da prestigiada Central Saint Martins com ideias que iriam revolucionar a indústria do luxo: Stella McCartney, herdeira dos Beatles e com um mundo inteiro de poder e riqueza à sua frente, escolhe levantar a bandeira dos direitos dos animais, determina que suas coleções jamais terão peças feitas de couro ou pelos e vai além, pressionando a indústria a avançar tecnologicamente na direção de alternativas a esses materiais. 

Na tarde deste sábado, enquanto editores, convidados, modelos e todo tipo de curiosos corriam para chegar a tempo aos shows, uma equipe de ativistas chamou a atenção de quem, até poucos minutos antes, só pensava em ver as novidades que os designers trariam às passarelas. Eram os rostos (ou máscaras) por trás do autointitulado Coletivo Criativo SURGE (www.facebook.com/surgeactivism), movimento ativista dedicado a acabar com o sofrimento animal por meio de soluções políticas.

Eles defendem que o futuro dos animais - que diariamente são mortos e explorados aos milhões ao redor do mundo - pode e deve ser diferente. Mas vão além do grito contra o uso de pelos e couro pela indústria de moda, pedindo o fim completo de toda e qualquer exploração animal para benefício humano.

No Sábado, 29 de outubro, a organização planeja levar milhares de ativistas para as ruas de Londres, no que esperam que seja a maior, mais colorida e poderosa marcha a favor dos direitos dos animais já realizada na história da Inglaterra. 

Nossa correspondente internacional, Valeria Bravo Maynard, conversou com Ed Winters, filmaker freelancer de apenas 22 anos e um dos líderes do SURGE presentes no protesto:

‘CAUSE - Conte-nos um pouco sobre a criação do SURGE.

ED - A razão de termos criado o SURGE foi porque acreditamos que não existia aqui, no Reino Unido, um cenário de ativismo para esta causa dos animais que fosse efetivo de fato.

‘CAUSE - Mas e o PETA (que apesar de fundado nos EUA, é hoje presente no Reino Unido e considerada a maior instituição em defesa dos animais no mundo)?

ED - o PETA é mais voltado para a publicidade nos eventos. Ontem eles estiveram aqui, mas as mulheres estavam vestidas de uma maneira que não chamava atenção necessariamente para a causa dos animais.

(Como Londres comemora 40 anos da cultura punk, as ativistas do PETA apareceram na abertura da LFW vestindo roupas inspiradas na indumentária punk e conclamando os designers a darem um passo além no que consideram a próxima revolução de estilo: “a moda não precisa fazer mal aos animais”. Para saber mais, visitehttp://www.peta.org.uk/blog/photos-vegan-fashion-revolution-hits-london-fashion-week/)

‘CAUSE - Qual seria a abordagem de vocês, portanto?

ED - Queremos fazer um trabalho mais sério e efetivo. Para isso, usamos vídeos, fotos e sons dos animais, mostrando a crueldade cometida contra eles por essa indústria. 

‘CAUSE - Sabemos que um dos problemas do combate ao uso de peles acontece quando elas passam a ser vendidas como falsas (o famoso “fake fur”). O que explica isso?

ED - Isso acontece porque esse mercado tem custo muito baixo de produção. São espaços enormes, confinando animais que não recebem suprimentos adequados de água ou alimentos. São mantidas com o mínimo para apenas sobreviverem. A China, por exemplo, que é um dos maiores exportadores de pele no mundo, produz pele de cachorro e gatos. Aqui, ninguém compraria isso, porque todos nós gostamos de cães e gatos. Ninguém compraria pele de um labrador, um cocker spaniel. Então, o que eles fazem é vender e promover isso como sendo pele falsa. 

‘CAUSE - E o que vocês esperam vindo até a LFW?

ED - Estamos aqui porque estamos notando que pele voltou ao "mainstream" novamente na moda. Antes, em função do ativismo, poucos estilistas usavam peles. Agora, estão usando como nunca antes. Queremos mostrar para eles que não iremos tolerar isso. 

‘CAUSE - Além da presença na semana de moda de Londres, vocês já estavam planejando uma marcha na cidade para o próximo mês, certo? 

ED - É a primeira marcha oficial dos direitos dos animais. Queremos que seja o maior evento realizado aqui sobre essa questão. Temos confirmados 1600 pessoas, mas queremos aumentar ainda mais este número.

Sairemos do Hyde Park e iremos em direção à Westminster (no Palácio de Westminster é onde estão instaladas as duas câmaras do parlamento britânico, a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes). Precisamos do apoio e envolvimento dos políticos, porque existe ainda muita vista grossa em relação a esse problema. Não entendemos porque é ilegal produzir pele aqui, mas não é ilegal consumir esse produto.

Curiosamente, a própria semana londrina traz, nesta edição, uma plataforma para discussões éticas sobre a indústria de moda. Por meio de rodadas de conversas (Ethical Insights Talks), a chamada “Ethical Trading Initiative” vai hospedar uma série de discussões examinando maneiras de melhorar os direitos dos trabalhadores e condições de trabalho nas cadeias de suprimentos da moda. Qualquer pessoa pode se registrar para participar do evento “Podem as fast fashions ser éticas algum dia?” acessando ethicaltrade.org/events/can-fast-fashion-ever-be-ethical

Pelo menos por enquanto, essas rodadas de conversas parecem não incluir a questão dos direitos dos animais, focando apenas no ponto de vista humano da cadeia industrial. Mas o fato de uma semana de moda tão importante ter aberto um espaço exclusivamente para discutir melhorias éticas na indústria de moda como um todo já aponta para um possível futuro mais positivo que, aos poucos, contemple também os direitos dos animais.