O som que vem de lá

Texto: Mariana Quaresma

Fevereiro, pré-carnaval e toda aquela energia baiana. Eu estava em Salvador para o primeiro ano de um evento cujo nome era Furdunço. Desavisada em meio à multidão de pessoas que “faziam o esquenta” para o carnaval, à beira do mar, ouvi as primeiras batidas que provocaram quase instantaneamente uma catarse social. Naquele momento, não sabia como classificar aquele som e o efeito que sua emissão teve sobre as pessoas. 

Foi inevitável, ao acordar no dia seguinte, dar uma pesquisada naquela banda que, apesar da longa história, era até então desconhecida para mim. Mais uma vez me surpreendi. Abri o clipe da canção Playsom no Youtube e vi que todo o discurso de afirmação social da periferia baiana se desenhava, não apenas pela música daquele grupo, mas também pela potente identidade visual do clipe que reforçava uma linguagem semiótica que refinava, sem elitizar, a musicalidade reverberando nos meus ouvidos.

Playsom acompanha uma pessoa qualquer se preparando para o carnaval. As imagens vão se encadeando com o  som que termina em um plano misto da própria celebração carnavalesca sobreposta por ritmistas. O clipe de quatro minutos traz a mistura sonora das músicas eletrônicas com o swing baiano e apresenta a banda na sua forma primeira. A união de uma fotografia sofisticadamente simples, aliada ao grafismo dos frames, potencializa a música em “mais de mil decibéis”, como diz a canção.

Aquela foi minha porta de entrada para conhecer o material mais sólido e conceitual da banda Baiana System que hoje tem no álbum Duas Cidades o seu trabalho mais atual.

O cenário musical brasileiro, que vem revelando artistas capazes de traduzir os destemperos cotidianos e todas as felicidades banais de modo visceral, parecia ter ganhado mais uma banda para a lista.  O Baiana, protagonizado por um grupo heterogeneamente harmonizado somado ao vocal de Russo Passapusso - o menino do interior da Bahia que morou no pelourinho -, vem dando seu recado.

Eles fazem parte desse universo anteriormente árido da produção independente e hoje juntam-se a artistas como, Bnegao e o paulistano Curumin, que conquistaram o nicho de mercado da música com o discurso militante dentro de um espaço que revela a capacidade nacional da produção cultural com relevância e representatividade social. Assim como Emicida, Criolo e Karol Conka, a música é utilizada para ecoar histórias e quebrar padrões socialmente estabelecidos. Neste cenário as canções surgem para desmontar a segregação e tornar o que é local, universal.

No entanto, diz Roberto Barreto, um dos integrantes e idealizadores da banda, essa não era originalmente a intenção. “Não pensamos para ser uma música de militância, porém isso surge da própria maneira que a gente se comporta e vem natural nas letras a partir da nossa convivência em Salvador, mostrando realidades e posicionamentos que se refletem nos shows, nas letras e até nas entrevistas”, conta ele à 'CAUSE.

A mistura de dub music, com guitarra baiana, rap e samba faz da pluralidade um referencial de  trabalho. Bem costurado, o Baiana System saiu das ruas e largos da cidade natal para o line-up dos principais festivais de música que acontecem no território nacional e internacional. No caminho entre a estranheza do primeiro contato e da epifania decorrente da compreensão daquele conteúdo, os shows foram aos poucos se tornando mais e mais atrativos, a sensação de assisti-los é de uma potência energética que faz tudo se tornar uma comunhão da arte audiovisual produzida. É impossível sair dessa vivência sem se modificar. Os sons eletrônicos unidos à guitarra e aos sotaques baianos é tão forte que faz as ondas sonoras se propagarem  em ampla dimensão. Esse é o trunfo do trabalho da banda que vem colecionando fãs e se fortalecendo mercadologicamente por tabela.

“Através de elementos contemporâneos do nosso som, as bases e os elementos vocais com muita personalidade trazem uma identificação que oferta as pessoas experiências que marcadas por uma criação regional e acho que é isso que cativa as pessoas nos shows”, pondera o integrante do Baiana.

Atuando de forma extensiva nas principais plataformas digitais, a banda, que segue independente, utiliza-se da permuta entre eles e o público para produzir seu conteúdo visual, inaugurado um cenário quase colaborativo entre ambos. Para Barreto, essa é uma forma de “se conectar com o público” e “comunicar o nosso trabalho”, ao mesmo tempo em que buscam entender o feedback dado pelos fãs.

“Nosso formato de trabalho tem uma base do sound system e através de colagens e recortes de letras vamos testando o que funciona ao longo dos shows e as imagens caminham junto como um projeto audiovisual que dão força e sentido ao que fazemos. Tentamos a partir do que temos reinventar o que já fizemos, assim mantemos a nossa identidade sem ser monótono”, explica Barreto.

“Em alguns momentos somos mais pops às vezes mais conceituais sempre com as imagens nutrindo a nossa produção, e esse caldeirão é que faz tudo ficar mais interessante”, afirma.

Ele reforça que, apesar de a banda não ter planos muito concretos para o futuro, “o que a gente quer é não parar de trazer algo novo”. 

“Somos essencialmente mutantes e a experimentação é o combustível, e é como o próprio Baiana funciona,  por isso não conseguimos projetar nosso futuro. De repente daqui a dois anos teremos uma banda muito diferente do que é hoje, mesmo mantendo a nossa essência”, concluiu.

Nós ficamos agora na expectativa do que estar por vir e quais serão as novas músicas da turma que vem encabeçando um movimento vanguardista de comunicação abrangente da estética audiovisual nacional.

Agenda de shows:

23 de setembro Salvador | Pelourinho - Largo Tereza Batista - Rua Gregório de Matos, 6 | 21h

24 de setembro Brasília | Festival Satélite061 - Torre de TV - Eixo Monumental, s/n - Jardim Burle Marx; | 23h