O segundo capítulo do romance entre Tom Ford e o cinema

Texto por Rafaela Mattera

 Estávamos ávidas pelo próximo capítulo da atuação de Tom Ford, não como diretor de criação, mas como diretor de cinema, desde o lançamento de A Single Man (Direito de Amar, em português). O longa melancólico e romântico, com fotografia belíssima, gerou boas indicações para Tom e também para seu protagonista, Colin Firth, que recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza com o filme. Se na moda ele já adotou o imediatismo do formato “see now, buy now”, para o cinema, vimos que não há ansiedade. Uma vez que, após um longo hiato de 7 anos, desde seu primeiro relacionamento com o cinema – e um namorico, não como diretor, mas como designer, ao vestir Daniel Craig com seus ternos impecáveis e luxuosos no 007 Contra Spectre, em 2016 – Ford está de volta aos cinemas com Nocturnal Animals (Animais Noturnos, em português).

  Logo na primeira cena de Animais Noturnos somos arrebatadas por mulheres voluptuosas - que poderiam ter saído de um quadro de Botero, se não fossem as roupas com lantejoulas - dançando em  câmera lenta. Adiante, percebemos que elas fazem parte da nova exibição da galeria de Susan, interpretada por Amy Adams. Com obra de Damien Hirst no acervo da galerista, casa de vidro e concreto nas colinas hollywoodianas e um Jeff Koons à beira da piscina, a personagem de Amy, sempre com os cabelos ruivos perfeitamente alinhados, nos apresenta o lado frívolo e glamuroso da cena artsy de Los Angeles com diálogos intrigantes.

 Susan recebe então o manuscrito de “Animais Noturnos”, novo livro de seu ex-marido, Edward (interpretado por Jake Gyllenhaal), que é dedicado a ela. Ao iniciar a leitura, o filme ganha então um ritmo de tensão e passa a acontecer em 3 planos – vida real, narrativa deste livro e lembranças do casamento com seu ex Ed– assim como, no livro “Tony e Susan”, publicado em 1993 pelo escritor Austin Wright, do qual Tom Ford adaptou o roteiro para seu filme.

 O plano centrado no enredo do livro escrito por Ed, personagem de Jake Gyllenhaal, nos apresenta um cenário inóspito e aterrorizante vivido no deserto. Nele, Tony, um professor, que também é interpretado por Gyllenhaal, está em férias com a mulher e a filha, as duas ruivas. Os três fazem uma viagem à noite por uma estrada erma e tranquila no Texas até serem abordados por uma gangue, liderada pelo personagem de Aaron Taylor Johson, que ganhou o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante com o papel. Nesse plano do filme é possível observar ecos dos filmes de Lynch.

 No outro núcleo do filme, no plano das memórias de Susan, sua história com o ex-marido Ed é   relembrada: depois da jovem paixão adolescente, ela o troca repentinamente por um marido bem-sucedido, com quem é casada atualmente, provocando perda e dor em Ed, assim como o que acontece com Tony, o personagem de seu livro. Tom Ford comentou em entrevistas o modo como a sociedade no geral trata as pessoas de forma descartável, dizendo que isso o angustia – vale lembrar que Tom é casado há 30 anos com seu companheiro Richard Buckley, portanto suas falas condizem realmente com suas atitudes.

 Portanto, as 3 histórias se entrelaçam não de forma explícita, como na obra original de Wright, mas sim com associações alusivas, tácitas, direcionadas por associações visuais (obviamente, sua trajetória é de um grande nome da moda) e não com indicações expostas. Dessa forma, Tom Ford reestrutura não só sua concepção como um esteta, mas também reinventa as ideias de narrativa. Animais Noturnos foi o vencedor do prêmio especial do júri do Festival de Veneza e no recente Globo de Ouro, das três indicações (melhor diretor, melhor roteiro, melhor ator coadjuvante) venceu uma com o personagem de Aaron. Diante das indicações e consistência do filme, cabe a nos esperar por seu próximo filme, seja ele um drama romântico ou thriller ou outro gênero que Tom deseje se aventurar e nos surpreender. Mesmo que a pipoca vá esfriar, se for preciso, iremos esperar mais 7 anos, para nos encontrarmos novamente com Ford nos cinemas.