Entre irmãs - Women's March

Texto por Rafaela Mattera

 Um filme deve ter se passado na cabeça de Gloria Steinem – ícone do feminismo dos anos 60 e 70 – no sábado (21/01/2017), ao subir ao palco da Women’s March (Marcha das Mulheres), em Washington. Décadas após os movimentos feministas do século XX, Gloria, com seus 82 anos, se viu ao lado de diversas companheiras, também com seus oitenta e alguns, protestando pelo direito das mulheres. Nas ruas, pessoas das mais variadas idades, com destaque para as crianças segurando cartazes - feitos por elas mesmas (a caligrafia não deixava dúvidas) - indicavam que o futuro é prospero, apesar dos últimos acontecimentos na capital americana. Chicago, Nova York, Londres, Paris, Sidney, Melbourne, Santiago, Cape Town e mais um sem-número de cidades ao redor do mundo foram palco de protestos referentes ao direito das mulheres e das minorias, em resposta aos comentários misóginos, medidas contra o direito ao aborto e reorientação das políticas ambientais (ampliar o uso de energia fóssil, retomando as perfurações de petróleo e gás xisto) ditas pelo novo presidente dos EUA, Donald Trump.

 Os números apontam que o movimento foi o maior protesto da história dos EUA – lembrando que não foram poucos os atos emblemáticos que ocorreram por lá: em 1963, Marcha de Direitos Civis; em 1969, pelo fim da Guerra do Vietnã; em 1993, marcha pelos direitos LGBT, para citar alguns.

Lili White

Lili White

 Sábado mais um capítulo da história foi escrito. Pelo horizonte, um mar de gorros rosas, conhecidos como “Pussy Hat”, alongavam-se pelo horizonte. Se os anos 60 tiveram a queima dos sutiãs, os anos 2000, tiveram como acessório o gorro de tricô com formato de orelha de gato. O trocadilho está na palavra “pussy”, que em inglês significa “gato pequeno” ou “vagina”, e remete diretamente ao áudio de 2005, no qual Trump diz que: “ quando você é uma estrela, [as mulheres] deixam você fazer o que quiser. Você pode agarrá-las pela pussy”. O grupo “Pussy Hat Project”, liderado por Krista Suh e Jayna Zweiman, ajudou a tornar o gorro item do uniforme dos manifestantes, ensinando as mulheres a tricotarem o seu próprio. Assim ele tornou-se um elemento visual icônico na marcha das ativistas.

 As imagens das mulheres com cartazes em punho e mensagens feministas em suas roupas, inevitavelmente, trouxeram novamente a memória o desfile da Chanel primavera/verão de 2015, que aconteceu em 2014, no qual as modelos marcharam na passarela placas com slogans pro-feministas. Karl Lagerfeld com suas (quase) incontáveis décadas à frente de grandes maisons, parece ter farejado a intensificação do emponderamento feminino através da moda... Talvez seja porque, apesar de ser alemão, Karl passe boa parte do seu tempo em Paris, terra de feministas “natural-born”, afinal, a grande imagem do feminismo moderno, Simone de Beauvoir escreveu “O Segundo Sexo” em seus passeios pela cidade e suas idas ao Les Deux Magots.

 O uso de calça pelas mulheres e a criação da minissaia marcaram e revolucionaram a moda e sua relação com a liberdade de escolha das mulheres. Essa relação continua sendo reforçada dia após dia, com episódios relevantes como a atuação de Jean Paul Gaultier, que enaltece a diversidade da beleza, convidando personalidades como Beth Ditto, Velvet D’Amour e atriz Rossy de Palma – musa dos filmes de Almodóvar – hoje, com 52 anos para participarem de seus desfiles. Viviene Westwood, por sua vez, corre em suas veias o lema: “um amante da arte é um lutador” (originalmente: “an art lover is a freedom fighter”). Se não bastasse a própria figura rebel de Westwood, ela já expressou diversas vezes sua solidariedade com o desarmamento nuclear e as questões ambientais. Maria Grazia Chiuri, a primeira mulher a assumir a direção criativa da Dior, em seu desfile de estreia, não comediu seus passos e nem quis demonstrar seu apoio ao feminismo de forma tácita, apresentando uma t-shirt com a frase “We all should be feminists”. Nada mais justo, afinal, Chiuri aproveitou todo o alcance mundial que a grife possui. Já Phoebe Philo e suas convicções políticas e feministas estão enraizadas na Céline, que cria pensando nas peculiaridades de cada mulher e assim faz combinações inesperadas, aparentando falar: seja você mesma, aceite sua originalidade. Sendo assim, altamente rebelde, não é mesmo?

 Extrapolando o panorama internacional, em terras brasileiras temos boas marcas tratando de forma encantadora a relação das mulheres com sua aparência e reforçando mensagens feministas, como a GiuCouture, que faz bordados em camisetas.

 Inclusão e individualidade são duas palavras que permeiam fortemente o imaginário da moda, não por coincidência ou hype comercial, este é o momento que estamos vivendo. Direitos foram conquistados e nós não daremos nenhum passo trás e, como obviamente vocês sabem, essa afirmação estende-se para diversas esferas – políticas, culturais, sociais... Os mais de 2 milhões de pessoas na Women’s March e o crescente número de marcas aderindo ao discurso feminista estão aí para ilustrar isso. Juntas somos mais fortes, estamos entre o amor de irmãs - como bem definiu Letícia Cazarré na carta da editora da nossa LOVE Issue, ao destacar as diferentes formas de amar e elencar o companheirismo entre as feministas. <3 #GRLPWR