Qual o seu medo?

Texto: Rafaela Mattera
Fotos: Bruna Sussekind

 “O medo, com sua capa, nos dissimula e nos berça ”. O trecho do poema “Medo” de Drummond, escrito na década de 40, durante o Estado Novo de Vargas, dialoga de forma precisa com a exposição O Nome do Medo. Não por acaso, ele foi uma das muitas referências citadas por Rivane Neuenschwander, durante a inauguração da mostra nessa terça-feira (21/02).

 Para marcar a abertura da exibição de Rivane, em parceria com o fashion designer Guto Carvalhoneto e com curadoria de Lisette Lagnado, os três participaram de uma conversa na galeria no Museu de Arte do Rio – MAR, na qual falaram sobre suas ideias norteadoras desse sensível e denso projeto. A sala de exposição ficou repleta de admiradores da arte e da moda, com olhos atentos e curiosos sorrisos no rosto diante da espontaneidade das crianças, seus medos e cultura lúdica. O vínculo traçado naquele momento entre os três e o público foi inspirador.

 Lisette Lagnado destacou o instrumento característico do trabalho de Rivane que ativa a subjetividade do outro, culminando em capas que são atribuídas à subjetividade das crianças. A curadora, com suas falas repletas de poesia, ressalta que a vontade dos três era pensar em um dispositivo que não fosse apenas contemplativo, mas que pudesse emponderar as crianças dando-lhes força para mudar seus ânimos. Ela comentou também sobre como o menor - as mais de 200 crianças que participaram das oficinas motivadoras da exposição – nos interpela diversas interpretações sobre o medo. Até que ponto são apenas medos? São medos só das crianças? É nosso medo também? Reagimos como crianças diante do medo? Ainda existe muito a ser descoberto, sem dúvidas.

 Divane, por sua vez, contou que o trabalho com o Guto foi um divisor de águas, como ele próprio também define. O entusiasmo das crianças e confiança de compartilharem seus medos foi ponto crucial no projeto. Diante da situação política em que o mundo encontra-se, ela destacou também o modo com que o medo atua como estrutura social que paralisa, fazendo-a citar o poema de Drummond.

 Guto destacou o caráter colaborativo da exposição, contou que o projeto trouxe alegria para seu ateliê e que através da reação das crianças, percebeu que nós não crescemos, mas sim nos distanciamos da infância, o que o levou a identificar-se com alguns dos medos.

 As capas criadas para as crianças se protegerem e combaterem seus medos, além de serem obras-primas de moda e arte, dizem muito sobre o momento social que vivemos. Além dos medos afeitos do universo infantil, como cobra, leão, furacão, estão presentes também medos mais severos, que antes pertenciam majoritariamente ao universo adulto e hoje permeiam intensamente a infância, como medo de guerra, estupro, morar na rua, do cara que estava com a metralhadora.

 Visitar a exposição e ter a sorte de encontrar um grupo de crianças interagindo com as obras é revigorante e nos remete à espontaneidade que tínhamos quando éramos mais jovens. Além disso, é pensar como nos debruçamos constantemente sobre os questionamentos acerca do medo. É também inevitável não se inquietar diante dos temores mais ásperos que afetam as crianças. A exposição fica em cartaz até 10/03 e é uma experiência sublime e sensível de arte e moda andando de mãos dadas. 

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