Sloppy - sobre processos e bloqueios criativos

Entrevista: Bruna Sussekind
Texto: Rafaela Mattera

Certamente, a frase de Oscar Wilde “Aquilo a que nos dedicamos quando não temos a obrigação de fazê-lo, é exatamente o que seremos quando não pudermos mais resistir” permeia o imaginário daqueles que se interessam por histórias profissionais cativantes. A afirmação dialoga diretamente com a história da artista Mariana Benevides, com quem a ‘CAUSE conversou, com exclusividade, sobre expressão pessoal, processo e bloqueio criativo.

Mariana é mais conhecida por Sloppy (no inglês: desorganizada, desleixada, atrapalhada), termo que parece conter muito do que ela é, como conta. Ela começou a fazer colagens em 2012, nas quais interpretava trechos de músicas nas páginas de um Moleskine e brincava com a construção de frases com palavras aleatórias de revistas. Era uma válvula de escape, uma forma de expressão muito pessoal, que a fazia se sentir tão bem por criar algo com as próprias mãos - depois das frustações de não saber desenhar ou tocar algum instrumento musical.

Após dois anos de dedicação, em uma conversa de bar no DameDame – barzinho independente, não mais existente, infelizmente – na presença de um ímpeto artístico e corajoso, decidiu montar sua primeira exposição, sozinha, diante de um futuro ainda incerto. Felizmente e, merecidamente, a resposta do público foi positiva e daí em diante passou a se intitular oficialmente Sloppy. A página no Facebook de suas colagens, foi crescendo gradativamente e em dois e meio atingiu mais de 3900 admiradores de seu trabalho, que interpretam de forma pessoal o trabalho de Mari e assim, a fazem crescer em muitos aspectos da vida. Seguir em frente, recortando e colando. Mais exposições, individuais e coletivas com artistas locais, aconteceram. Vendeu zines, prints, adesivos, que hoje colorem quartos, salas e casas de outras pessoas, em outras cidades e até outro país. O projeto que deu os primeiros passos de forma muito natural, espontânea, quase incerteza, floresceu.

Sloppy define seu processo criativo como “simples” e ele soa extremamente agradável: idas e idas à sebos para coletar material, quietude em seu canto e recortes durante horas. Na mão, tesoura de ponta e cola Pritt. Na cabeça e claro, no coração, um sentimento, uma frase ou um elemento, que ela quer colocar para fora e desenvolvê-lo à medida que a colagem toma forma. Ao mexer nas revistas velhas, a rinite também acompanha durante a criação.

Todas suas colagens tem um nome, significado e representam algo para ela, deixando-a vulnerável: “sou eu ali”, transparece. Hoje, Sloppy encontra-se em meio a bloqueio criativo. “A gente começa a adquirir um ridículo ego de artista e faz algumas besteiras só para depois entender onde errou, onde foi inocente demais. Mas faz parte, né? Não pretendo parar. Ser sloppy me ensinou muita coisa, alimentou minhas seguranças e inseguranças de maneiras diferentes e abriu muitas portas. Seria quase ingrato dizer para mim mesma que paro por aqui. Eu volto.” Volte, por favor, Sloppy.