Nossa cobertura da Fashion Forward Dubai

Texto: Valéria Bravo Maynard
Fotos: Getty Images | Patrick Sawaya | Valéria Bravo Maynard

 

Fashion Forward Dubai encerrou com chuva e um total de 10 mil pessoas nos três dias de evento

Debaixo de um temporal, terminou no último sábado (25/03) a 9º edição da Fashion Forward Dubai (FFWD). O evento foi realizado no Design District Dubai (d3), em um espaço especialmente projetado para receber os fashionistas, que compareceram em peso: cerca de 10 mil pessoas, de acordo com os organizadores. No total, 24 estilistas da região, entre emergentes e consagrados, desfilaram suas coleções couture e ready-to-wear.   Já no segmento Showcase, 14 marcas de joias e acessórios foram apresentadas. A programação contou ainda com palestras e painéis de discussões, e eventos sociais, incluindo as concorridas after parties.

É visível o investimento que Dubai tem dedicado à cultura em geral nos últimos anos. As cenas artísticas e de design locais crescem com a velocidade típica da cidade que está num relacionamento sério com os superlativos. O amadurecimento de eventos globalizados, como o Art Dubai e o Design Days Dubai, além da construção de novos espaços culturais, como o Dubai Opera, têm confirmado isso.  A FFWD faz parte desse esforço para garantir visibilidade e apoio aos talentos da moda regional. O evento é reconhecido como a semana de moda mais importante dos Emirados Árabes Unidos e uma das mais respeitadas do Oriente Médio. É também a única a contar com as chancelas do Dubai Design and Fashion Council (DDFC) e do Dubai Design District.

Amato

Amato

A FFWD tem consolidado sua missão de plataforma para estilistas residentes ou nascidos no Oriente Médio. Mas, em termos de número de temporadas, é ainda, relativamente, novo.  Foi criado em 2013. Desde então, vem evoluindo continuamente e de braços dados com a indústria que ajuda a dar forma e visibilidade. Nesta edição, o evento registrou um público de cerca de 10 mil pessoas, incluindo líderes do mercado, mídia especializada, compradores, entre outros. Segundo o CEO e co-fundador da FFWD, Bong Guerrero, “À medida que o evento cresce e se adapta, nossos designers também crescem em confiança, experiência e exposição. Queremos crescer constantemente em cada temporada, aprendendo e nos adaptando à medida que avançamos, de acordo com os nossos designers e a paisagem regional”.

 

As escolhas da ‘CAUSE - Em geral, as produções das apresentações e dos desfiles foram cuidadosas. Alguns, especialmente os de couture, foram espetaculares, performáticos, com grandes doses de dramaticidade. Entre os mais memoráveis, destaques para Hussein Bazaza, Michael Cinco e Amato. 

Hussein Bazaza -  o libanês, que já trabalhou com Elie Saab, lançou sua primeira coleção ready-to-wear em 2012 e, desde então, vem abocanhando importantes prêmios, como Melhor Estilista do Oriente Médio, pela Elle Style Award, entre outros.

Para o desfile na FFWD, ele foi buscar inspiração num conto japonês que fala de guerra, perdas e vingança. Por isso, a cor predominante foi o vermelho, cor de sangue, com algumas pinceladas metálicas de ouro rosa.  A coleção tinha um perfume dos anos 40 e 50, com um toque moderno. As formas eram clássicas, mas com mangas bufantes, ombros exagerados e saias flare. Os tecidos mais usados foram o tweed, caxemira e malha. Padrões militares, brocados intricados e pesada pedraria também foram as marcas das peças apresentadas. 

Hussein Bazaza

Hussein Bazaza

Michael Cinco – O estilista nascido nas Filipinas e residente em Dubai, é o queridinho de muitas celebridades. Nomes poderosos como Beyonce, Lady Gaga, Britney Spears, Jennifer Lopez, Christina Aguilera, Naomi Campbell, Tyra Banks e Sofia Vergara, entre muitas outras, já envergaram suas criações couture pelos tapetes vermelhos da vida.

Sobre a inspiração para a coleção apresentada na FFWD, Michael Cinco explicou que voltou no tempo e foi ate à França de Luís XIV, ao palácio de Versailles e ao estilo de vida luxuoso e opulento da corte. Ele usou e abusou de renda e tule, bordados feitos à mão, e corpetes, muitos corpetes. Os vestidos de festa fizeram referência à Maria Antonieta.

Michael Cinco

Michael Cinco

Amato – Amado em italiano, é a marca lançada em 2002, nos Emirados Árabes Unidos, por outro filipino que vem fazendo nome na região e mundo afora. Furne One tem também apresentado suas criações em outras semanas de moda, incluído a London Fashion Week. Assim como acontece com seu compatriota Michael Cinco, as criações de Furne One são disputadas por celebridades, desde a supermodelo Heidi Klum às cantoras do naipe de Jennifer Lopez, Katy Perry, Shakira, Nicole Scherzinger e Nicki Minaj.

Ele teve a honra de encerrar a última noite de desfiles da FFWD e não decepcionou. Um desfile teatral, começou com um vídeo, fazendo referência aos horrores da guerra e passou para a passarela em um cenário também de destruição. Em contraste, a inspiração da coleção foi o glamour e a opulência das décadas passadas. Uma mistura luxuosa de rendas, lantejoulas, cristais, penas, peles e brocados. As cores eram em tons escuros, fechados, em oposição a outros mais suaves. Atenção para a make e as incríveis headpieces, com flores, galhos e muito tule.

Amato

Amato

Presentations - Se o luxo e a opulência marcaram presença em vários desfiles do Hall 1, na tenda vizinha destinada às apresentações, sem o formato de passarela tradicional, chamaram a atenção marcas com um toque mais minimalista, como a local Hessa Falasi. Também foi interessante ver a saudita Ghudfah, mais fiel à cultura árabe, trazendo abayas modernas, com silhuetas mais marcadas. As peças exibidas foram produzidas numa variedade de tecidos como crepe, seda pura, organza e jacquard. A paleta de cores foi além do onipresente preto da tradicional vestimenta.

Ghudfah

Ghudfah

Já a marca Bedouin agradou com sua moda jovem e coleção inspirada nas galáxias, com tecidos como o veludo e muitos metalizados. Ghain Ghada apresentou vestidos em forma de ampulheta, com muitos babados de tule. A Arwa Al Banawi trouxe uma coleção com paletós de lapelas amplas, cores fortes, contrastando com outras peças com florais miúdos. As modelos entraram ao som da cantora iraniana Layla Kardan e de um dj.

Na esquerda: Bedouin. Ao centro: Arwa Al Banawi. Na direita: Ghain Ghada

A Tair, marca de Allyia Tair, original da Ásia Central, trouxe uma coleção unissex, com silhuetas fluidas e tons neutros de azul, cinza e terra.  Aliás, a abertura do Shamans Don’t Cry arrepiou a plateia com a performance de uma “curandeira’

Tair

 

Showcase -  Entre as marcas de joias e acessórios, atraíram o olhar a Azra, uma marca local criada em 2015, com uma pegada minimalista e fabricação de bolsas em couro de boi e de camelo. Jude Benhalim, uma jovem designer de joias egípcia, trouxe sua coleção Rebelde Urbano com peças maximalistas. Lya Lya inspirou-se nas formas do abutre para a coleção, ao mesmo tempo, forte e elegante. Garras e cabeças do animal emolduravam as bolsas.

Azra

Azra

Fashion talks - A seção dos debates também foi muito concorrida.  Especialistas da indústria da moda global e regional abordaram temas atuais, com especial relevância para mercados produtores emergentes como o do Oriente Médio.  A importância do e-commerce, a viabilidade e também efetividade do see now buy now, e como construir uma marca forte o suficiente para resistir ao teste do tempo foram alguns dos assuntos discutidos.

Entre os debatedores internacionais estavam presentes o CEO do Who's Next e Premiere Classe, Etienne Cochet, e a fundadora e CEO do Launchmetrics, Eddie Mullon. Um dos destaques do grupo foi o brasileiro Daniel Coutinho, diretor geral da Nowness. A empresa carrega uma curiosa mescla:  o frescor de uma star up digital com o peso de pertencer ao poderoso grupo LVMH. A Nowness é uma plataforma de vídeos online, com uma curadoria global que abrange uma infinidade de assuntos: de arte e design à fotografia, moda, música, passando ainda por alta gastronomia e viagens. Coutinho compôs a mesa de discussão sobre a arte do storytelling digital na moda.

Outro brasileiro que marcou presença na FFWD foi o modelo Lucas Alves. Desde 2015, o mineiro de Manhuaçu divide sua agenda de trabalhos entre Dubai e Europa. Recentemente, estrelou as campanhas da Dolce Gabbana, destinada ao Oriente Médio, e da Just Cavalli global. Com participações em quatro temporadas da FFWD no currículo, Lucas foi escalado por cinco marcas nesta edição, incluindo o desfile mais aguardado e performático do evento, Amato.

Lucas Alves

Lucas Alves

Dubai sabe como poucas cidades no mundo receber bem e entreter um visitante. A FFWD também dispensou especial atenção à organização da parte mais social do evento. Nem mesmo a chuva forte, fenômeno incomum por aqui, diminuiu a animação da turma. The Fashion Village, um conjunto de bares, cafeterias e food trucks eram os espaços preferidos entre um e outro desfile. A cada noite, ao fim da última apresentação, quase sempre após às 23 horas, era a vez de ferver na pista de dança, ao som de DJs convidados nas after parties, que entravam pela madrugada.  Agora é aguardar pela 10º edição do evento.