A Moda e a Moda Limpa

por Marina de Luca

 

Por que estamos usando o nome Moda Limpa?

Porque o que chamamos de “Moda” hoje é uma moda suja.

Construímos uma indústria baseada no lucro de poucos através da exploração de muitos, sonhando com o sucesso e a realização pessoal, sem refletir se isso daria sentido às nossas vidas, enquanto destruíamos outras mais frágeis.

Você dormiria tranquilo sabendo que seu trabalho traz sofrimento e morte a outras pessoas?

Eu não. E por isso não consegui mais seguir o status quo da minha profissão como estilista. Como desenhar e desenvolver roupas em ritmo alucinante, sem conseguir tempo nem para ir ao banheiro? Convencer as pessoas de que elas precisavam comprar as roupas que eu desenhava, gastando às vezes todo o seu salário.

Suja: imunda, desonesta, grosseira.

A moda se encaixa nas 3. Suja, cheia de químicos, agrotóxicos, plásticos e metais pesados. Desonesta, pagando mal a maioria dos trabalhadores, e grosseira, pois junto com a mídia, cria uma imagem em que a maior parte das pessoas não se encaixa, causando sofrimento.

São muitos impactos. Deixo alguns números que podem despertar um interesse:

·         A indústria da moda é a 2a indústria mais poluente do mundo;
·         Algodão é a fibra natural mais usada no mundo e a que mais utiliza agrotóxicos (25% do uso mundial);
·         70% da produção global de PET (plástico), matéria-prima oriunda do petróleo, vira tecido;
·         Mais de 80% dos resíduos têxteis destinados aos aterros poderiam ser reutilizados;
·         Amâncio Ortega, um dos homens mais ricos do mundo, é fundador de uma das marcas com mais acusações de trabalho escravo.

Ou seja, hoje produzimos, vendemos, compramos, usamos e descartamos errado. Mas apesar de tudo parecer uma sujeira impossível de limpar, existem iniciativas (e não estou falando de marcas) que estão desafiando as previsões. O Brasil não está fora delas.

Começo falando da dupla The Minimalist que mostra como a vida pode ter propósito se “amarmos as pessoas e usarmos as coisas, porque o contrário nunca funciona”. Uma campanha para que a gente tenha menos coisas e seja mais, afinal, precisamos falar sobre o consumismo exagerado de hoje. Incluo também aqui as iniciativas brasileiras do guarda roupa compartilhado: a Lucid-Bag, o Roupateca e o Wasted-Lab que propõe alugar roupas de dia a dia, satisfazendo a vontade de algo novo sem precisar comprar. É a cultura do acesso substituindo a da posse.

Outra iniciativa é o movimento Fashion Revolution, criado em 2013 para aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda (produção e consumo). O movimento chama as pessoas a postarem uma foto com uma roupa, taggeando a marca e colocando a hashtag #quemfezminhasroupas?. O movimento exige transparência e celebração dos envolvidos e hoje está presente em 92 países, expandindo cada vez mais a discussão.

O Moda Limpa também traz mais caminhos. É um site criado por mim, pelo Kaio Freitas e pelo Julio Almeida. Uma plataforma colaborativa, onde todos podem indicar fornecedores mais sustentáveis ou éticos para a moda. Por exemplo, se você tem uma marca de camisetas, encontra lá o contato dos fornecedores de malha de algodão orgânico, tingimento à base vegetal, cooperativas de costura. Hoje o site conta com 165 cadastros, entre fornecedores e marcas. Conecta as pessoas que já estão fazendo a moda limpa. Quando um produtor, ou uma indústria, tem uma prática de menor impacto, ela precisa ser compartilhada com outras pessoas. O Moda Limpa acredita que o compartilhamento de informação e a divisão de boas práticas fortalece o mercado, formando uma rede de apoio e negociações.

Existe também a Retalhar, empresa que faz logística reversa com resíduos têxteis, principalmente uniformes (problema monstruoso dentro do recorte de descarte têxtil). Eles propõem um novo modelo de negócio, baseado em Muhammad Yunus, pai do “negócio social”, uma alternativa ao capitalismo tradicional e voltado exclusivamente ao lucro.

Me pergunto por que todas as marcas ainda não estão contratando serviços como o da Retalhar, principalmente as marcas que fazem campanhas e marketing apoiando causas mais sustentáveis. Será que elas continuam descartando seus uniformes e retalhos de tecido em aterros sanitários ou produzindo ecobags?

Por último trago o viés da tecnologia e pesquisa científica, com o produto Biosoftness criado pelo Renan Serrano. Um spray feito de nano-cápsulas biodegradáveis, que ao ser pulverizado nas roupas, conserva contra o odor e inibe o crescimento de bactérias e fungos, ou seja, mantém limpa, assim o usuário pode ficar até 2 meses sem lavar a roupa usando todos os dias, economizando muita água e energia. (Outra boa discussão é: por quê devemos mudar de roupa todos os dias, mesmo que muitas vezes elas continuam limpas?). Ou o estúdio Ratorói que desenvolve materiais inovadores feitos com rede de pesca reciclada e “couro ecológico” a partir de fermentação de um fungo em água com açúcar."

A forma de se trabalhar está mudando. Quando entramos no mercado de trabalho encontramos os processos prontos, um verdadeiro manual de “como trabalhar com moda”. Agora esse manual ficou velho e estamos em plena pesquisa do “novo manual”. Cada vez que descobrimos uma nova forma para fazer a moda mais limpa, estamos dando uma chance à vida das pessoas.

Será que a humanidade vai conseguir salvar sua própria espécie da extinção? Não sei. Mas se eu puder minimizar o sofrimento de qualquer pessoa, minha vida já terá valido a pena.

“Ok, agora que já sei tudo isso, o que eu faço?”

Não sei. Não existe uma resposta absoluta. Depende de pesquisar profundamente cada problema e as possíveis soluções. Existem várias respostas, várias idéias, várias soluções paralelas, em rede, assim como é a vida que vivemos hoje. Acredito no coletivo, no espírito de comunidade, acredito na rede da moda limpa.

#redemodalimpa #modalimpa

Marinadelu@gmail.com
www.modalimpa.com.br
https://www.facebook.com/marinadelu
https://www.facebook.com/cursodemodadamarina/

Outras iniciativas interessantes para pesquisar mais:

Ong Repórter Brasil: http://reporterbrasil.org.br/
Banco de tecido: http://bancodetecido.com.br/  
Design possivel + economia solidaria : http://www.designpossivel.org/sitedp/ + https://www.facebook.com/cardume.demaes
Fablab Livre: http://fablablivresp.art.br/
Malha biodegradavel da Santa Constância: http://santaconstancia.com.br/
App que permite sentir o tecido através da tela do celular: www.sensoria.com