MUITO ALÉM DO JARDIM - UMA ENTREVISTA COM SERGIO BESSERMAN

Cazarré. Leticia; Graham, Roberta. Muito Além do Jardim. Entrevista com Sergio Besserman. ‘CAUSE MAGAZINE, Rio de Janeiro, número 5 (tema Nature): pp.68 - 73, julho de 2017.

 

 

Das lições de história que recebemos no colégio, aprendemos que, quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, uma das primeiras obras realizadas em nossas terras foi a do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Dom João VI, à época ainda Príncipe Regente, deu ordens para que as terras denominadas e o engenho que funcionava na Lagoa Rodrigues de Freitas fossem retomados para dar lugar a um jardim de aclimatação, onde espécies orientais como a canela, a noz-moscada e a pimenta do reino pudessem ser cultivadas com fins comerciais. 

De lá pra cá, o parque, com suas célebres palmeiras imperiais, tornou-se cartão postal da Cidade Maravilhosa, e uma das principais atividades de lazer para as famílias. Sergio Besserman, atual presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com passagens pela presidência do BNDES e do IBGE, no entanto, nos alerta. Nosso cérebro, segundo ele, foi darwinianamente formado para dar menos atenção às plantas do que aos animais. Em sua pertinente opinião, não existe muito sentido em preservarmos macacos sem árvores. Por este motivo, ele segue numa cruzada para modernizar o Jardim Botânico, transformando-o no que poderemos chamar de "jardim do futuro". 

Entre os projetos, que visam informar a população sobre botânica, está o desejo de digitalizar o jardim. Tendo em vista que as placas poluem esteticamente o ambiente, inteiramente dedicado às plantas, o plano é de que os frequentadores tenham acesso às informações sobre cada espécie presente através do celular, apenas apontando para a árvore desejada.

Nesta entrevista exclusiva para a 'CAUSE MAGAZINE, Besserman fala à Leticia Cazarré sobre os projetos para essa estimada instituição e compartilha suas opiniões sobre sustentabilidade, meio ambiente e conservação. 

 

Como presidente de um instituto de pesquisas historicamente reconhecido no mundo, como você enxerga a atuação do Jardim Botânico do Rio de Janeiro para a ciência e para a sociedade nos dias atuais?

    Com uma responsabilidade muito maior do que a grande responsabilidade que já existia no passado. Nós fazemos essencialmente pesquisa botânica, temos uma escola de Mestrado e Doutorado em botânica. A botânica é uma ciência básica fundamental, mas os botânicos usam a expressão "cegueira botânica": o cérebro foi darwinianamente formado para não prestar tanta atenção assim às plantas. Não se presta tanta atenção ao fato de que a biodiversidade não são só bichinhos - eu sou do WWF, sou da CI (Conservation International), participei como ambientalista das lutas pelo mico-leão-dourado, arara- azul, mas a flora é primária. Não adianta salvar o mico e não ter a floresta em pé. 

    A botânica já era importante, mas agora muito mais e, no Brasil, mais ainda. Temos uma restauração florestal gigante a fazer. Somando os nove países que vêm depois, não chega ao tamanho da nossa área - caso a gente cumpra as leis do Código Florestal, da Mata Atlântica e também nossa proposta de combate às mudanças climáticas apresentada na Conferência das Partes da ONU. Em princípio temos que restaurar a floresta, mas isso é feito, de modo geral, pela disponibilidade de mudas nos viveiros. Não há nada que obrigue e dê as ferramentas pra reconstituir o melhor possível a biodiversidade original. Se plantarmos a mata atlântica inteira com pau-brasil, não teremos replantado a mata atlântica, e sim feito uma monocultura. E o Jardim Botânico - nunca sozinho, isso não existe mais em ciência - , em rede com Amazônia, São Paulo, Rio Grande do Sul, tem a missão de fazer com que a restauração florestal do Brasil seja uma restauração ecológica, que respeite a biodiversidade original. Para isso é preciso muito conhecimento. É preciso ter o conhecimento de qual era a composição dessa mata atlântica em sua biodiversidade original e ainda temos que enfrentar um problema que o mundo não tinha e tem agora, inevitavelmente, que é o aquecimento global. Nós já esquentamos 0,8 graus celsius da temperatura média do planeta, vamos esquentar no mínimo mais 1,5 graus até o final do século, e possivelmente bem mais do que isso, o que faz com que toda a estratégia de conservação tenha que ser repensada. O aumento de 1 grau já modifica completamente a capacidade de sobrevivência das espécies naquele habitat. 

    Por exemplo, no JB queremos ter um banco de DNA de todas as espécies ameaçadas de extinção, não só de um indivíduo de cada espécie, para garantir a variabilidade genética e promover a conservação. 

O JB sempre teve papel importante na pesquisa básica botânica, que é imprescindível, mas agora tornou-se muito mais importante porque está associado a toda a restauração florestal e à reconstituição dos biomas do Brasil.

Em relação a outros jardins botânicos do mundo, o que você destacaria de mais especial no do Rio de Janeiro? O que te comove no JB do Rio?

Ele tem uma história muito especial. O Brasil é um país muito jovem e uma instituição de 209 anos não é pouca coisa. Ele não surge como jardim botânico, mas como jardim de aclimação destinado a descobrir que espécies prosperariam no Brasil, trazendo retorno econômico à Coroa. Ele não é organizado por biomas, como outros jardins botânicos do mundo. Acabou sendo organizado em famílias de espécies e tornou-se um jardim bonito esteticamente, meio “jardim do éden”. 

Mas nós temos a pretensão de dar dois passos além: 1) resolvendo a questão fundiária do jardim, com o maior respeito e dignidade pelas pessoas que hoje estão aqui dentro, mas precisamos desse território para expandir nossas matrizes de espécies em extinção, especialmente da Mata Atlântica; 2) e queremos também incorporar uma floresta aqui próxima ao território do jardim: uma coisa é plantar uma espécie em um canteiro, outra é plantá-la no habitat natural. Fazendo isso teremos um jardim do futuro, que tem seus canteiros científicos, chamados de “arboretos”, uma zona de transição, e a floresta. Isso nos tornaria um jardim botânico único no mundo. 

A outra questão é: esse é um lugar lindo, as pessoas vêm passear, contemplar, isso é importante. Mas o Rio não é a cidade mais carente de espaços para isso. Você dá um passo, está no Parque Lage, dá dois está no mirante do Leblon, dá três, está na Floresta da Tijuca, ou em um pulo está na Lagoa Rodrigo de Freitas.  Anda um pouco mais e está na praia de Ipanema e do Leblon. Mas a sociedade brasileira tem uma carência gigantesca de conhecimento e de acesso à ciência. Nós somos muito ruins nisso. Não estou falando de quantos papers publicamos em revistas científicas. Estou mencionando que a população em geral e a elite, em especial, são muito ignorantes cientificamente. O PISA mostra isso (é o único teste internacional com os alunos), e não diz respeito à média da população. Se compararmos a elite brasileira e a elite de outros países, a diferença aumenta. É impressionante esse dado, mas a intelectualidade brasileira ainda não se debruçou direito sobre ele. Não é só uma questão da baixa qualidade do ensino para as pessoas mais carentes. A elite brasileira é mais ignorante, em relação à elite dos outros países, do que a média da população brasileira. E em ciência é até pior. 

No mundo inteiro, os museus e espaços parecidos com o nosso têm uma nova realidade que é a internet. Você quer conhecer a Mona Lisa? Qual o melhor jeito, ir até o Louvre e ficar pulando atrás de 300 chineses ou entrar na internet e ver a imagem em alta resolução? Então os museus todos têm mudado. O acervo continua importante, mas o principal é impactar a pessoa emocionalmente para que ela se abra e depois corra atrás do conhecimento. O JB do Rio de Janeiro conta com um privilégio extraordinário em relação aos museus que têm que se esforçar tanto com tecnologia, interatividade, games… se a pessoa entrou no Jardim Botânico, já está impactada. Já está envolvida. Está com a cabeça aberta para alguma coisa. Sou a favor de usar essa qualidade para transmitir conhecimento, mas sem ser chato, didático, e também sem poluir visualmente com placas. Nosso plano é fazer isso digitalizando o jardim. A ideia é que cada um possa escolher qual é o seu interesse, apontar o celular para uma árvore, por exemplo, e ter informações em tempo real sobre aquela espécie ou indivíduo, sobre os biomas e outras características científicas. Ou, se preferir, saber sobre usos populares e medicinais, ou curiosidades como o fato de que 100% dos arcos de violino de alta performance do mundo são feitos de pau-brasil. 

Ao mesmo tempo, queremos criar pelo jardim muitos passeios possíveis. Desde o passeio contemplativo e que enriquece o espírito: o sujeito sai andando, flanando e fica feliz. O bacana é que ninguém vem apenas uma vez ao jardim. Todos voltam. Então, na próxima vinda, ele pode fazer a trilha da história evolutiva das plantas, começando pelo musgo, depois as samambaias, e assim por diante. Como o Estado é Laico, temos a trilha das plantas que vieram da África, para usos culinários ou religiosos. Outro exemplo é a trilha dos primeiros botânicos do Brasil: os indígenas. Podem ser trilhas científicas, taxonômicas, por famílias de plantas. Isso tudo permite a amplificação da qualidade da visita ao JB. 

Sobre conservação de biodiversidade, quais são as linhas de atuação mais fortes da instituição?

 Somos mais fortes em Mata Atlântica, mas fazemos coletas e somos muito importantes em todos os biomas e até mesmo no fundo do mar. Petróleo é importante, mas para ter licença do Ibama, a exploração não pode atrapalhar nem corais, nem rodolitos. O JB é onde se concentra esse conhecimento. Quanto mais nos apoiarem para aumentarmos o conhecimento sobre o litoral brasileiro, mais segurança jurídica terá o leilão de uma área para uma empresa petrolífera, por exemplo. E olha que eu sou da área de mudanças climáticas, nem deveria falar a favor da indústria do petróleo!

Mas ciência hoje em dia é sempre em rede. Nós temos alçadas formais, claro, como a questão da biodiversidade. Somos nós que qualificamos todos os jardins botânicos do país. Mas trabalhamos sempre em rede. Não vamos chegar à Amazônia e achar que entendemos mais do bioma do que o Instituto Goeldi, do que o INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). 

 Nós também queremos muito usar as tecnologias modernas para disseminar conhecimento. Uma ideia é que as expedições de coleta possam ser acompanhadas pelas redes sociais. Imagine uma expedição de pesquisadores do JB às montanhas da Amazônia, e os interessados podendo ver tudo pela internet em tempo real. Em breve teremos isso. O pesquisador às vezes não percebe o valor intangível dessa comunicação porque está preocupado em encontrar sua planta e com os artigos que vai publicar depois. Mas não é importante só para o Jardim, é importante para todo mundo porque significa mais gente conectada nos temas da biodiversidade e do desenvolvimento sustentável.

O JB é contíguo ao Parque Nacional da Tijuca, maior parque nacional urbano reflorestado do mundo. Qual a importância das pesquisas realizadas pelo Jardim Botânico dentro do parque para o conhecimento sobre impactos ambientais e mudanças climáticas em áreas protegidas?

Em toda a Mata Atlântica e, por conseguinte, também na floresta que é contígua a nós, sejam coletas, sejam pesquisas de outra natureza, são todas de enorme importância. Sobraram apenas 7% da Mata Atlântica. Replantamos mais uns 8%, dando um total de 15% e para a preservação adequada da biodiversidade nós precisamos aumentar muito o conhecimento da flora e do que está realmente ameaçado, de como as mudanças climáticas vão impactar, de qual é a rede mais ampla de conexões que cada espécie tem com as outras que a cercam, para entender quais as melhores condições para que elas cresçam e vigorem. Não é uma questão de sair plantando espécies. Existe também a importância econômica para o restauro ecológico, já que a sobrevivência de mudas será muito maior se esse conhecimento se aprofundar. 

Por causa do surto de febre amarela que atinge pessoas e macacos, muitos bugios estão morrendo e até desaparecendo de fragmentos florestais no Brasil. Os poucos bugios que existem hoje no Parque Nacional da Tijuca foram reintroduzidos, ou seja, se forem mortos não haverá reposição desse estoque de biodiversidade. Em casos de fauna, o JB também participa dos projetos? Existe a preocupação com a possível chegada da febre amarela ao Parque Nacional?

Temos uma unidade de fauna que era originalmente dedicada estritamente à observação e cuidados com a fauna de dentro do Jardim, mas que hoje já colabora com os órgãos ambientais em todo o entorno. No episódio da febre amarela, embora nada tenha ocorrido no JB, exceto saguis que foram encontrados mortos (não era febre amarela, e sim, provavelmente, herpes humana, fatal para os saguis e transmitida por alimentos que os visitantes dão aos bichos), mas mais ainda nesse ambiente de aumento da temperatura média do planeta e também aqui no estado do RJ onde essas mudanças estão ocorrendo de forma incrivelmente veloz, nossa pequena unidade de fauna faz parte da rede que está o tempo todo alerta para problemas que possam ser trazidos para a saúde humana.

E qual seria a importância econômica mais direta do JB para as sociedades carioca e brasileira? Como esse uso da instituição pela população se alinha com os objetivos de desenvolvimento sustentável?

Em ordem crescente, eu mencionaria três principais: primeiro, usar esse espaço para que a sociedade brasileira valorize mais conhecimento e ciência; segundo, a conservação dos habitats naturais do Brasil, em cumprimento às metas de biodiversidade; o terceiro é, talvez, ainda mais interessante. O Brasil tem muitos problemas para enfrentar: desigualdades, o fato de que a república em que vivemos morreu (vai continuar como zumbi durante um tempo, mas precisa se renovar), mas nós estamos à beira de cair no que os economistas chamam de armadilha da renda média, ou seja, um país que progride, mas nunca consegue se desenvolver de fato. Isto é, a desigualdade é enorme, a competitividade é muito baixa, a corrupção é muito grande… o caminho para reverter isso é educação e governança, uma democracia de mais alta qualidade, não a democracia de baixa qualidade que temos hoje. Mas isso leva três gerações. Por outro lado, Deus ofertou um atalho: se nós vamos usá-lo ou não, dependerá de quanto a sociedade brasileira vai reagir. Nós não sabemos exatamente quando, nem como, o mundo vai abandonar a civilização dos combustíveis fósseis e migrar para uma economia de baixo carbono. Mas é praticamente possível assegurar que isso vai acontecer, até por uma questão de evitar um pesadelo de conflitos, guerras e sofrimento para centenas de milhões de pobres, que são mais vulneráveis a mudanças climáticas. Haverá a transição para baixo carbono. Se vamos ser inteligentes e fazê-la mais rapidamente, ou, se vamos demorar mais, e o custo será muito maior, não sabemos ainda. Essa é talvez a maior incógnita, o maior dilema da civilização nas próximas duas décadas. Mas vamos fazer, porque num determinado momento, os impactos serão de tal ordem e haverá tal custo que será inevitável.

O Brasil é um dos raríssimos países que, numa transição para baixo carbono, ganha muita competitividade. Em primeiro lugar, porque vamos poder ofertar alimentos e biomassa a baixo carbono, para o mundo todo. Se o carbono for precificado, e um dia será, isso significa competitividade. Em segundo lugar, porque nós temos uma infraestrutura muito ruim. Temos que refazer toda nossa logística. Somos um país continental que transporta carga em caminhão a diesel, é inacreditável. Temos um litoral gigante e não temos navegação de cabotagem. Não temos aeroportos suficientes. Já que teremos que refazer a infraestrutura, vamos já fazer no contexto de uma economia de baixo carbono. Temos uma tremenda oportunidade nas mãos. E em terceiro lugar, porque nós temos a oportunidade de pelo menos tentar ser o primeiro país no mundo a encontrar formas de desenvolvimento sustentável para florestas tropicais. Isso é possível e pode gerar muito valor. Essas características, junto com a matriz energética brasileira que já está na mão para se tornar limpa, nos tornam um país privilegiado. Estamos ficando para trás e países como Portugal já estão com uma matriz energética tão renovável quanto a nossa, mas temos o potencial de ter uma matriz energética 100% renovável. 

Nunca seremos campeões em energias eólica e solar, mas vamos usar muito essas fontes. Muita eficiência energética tem que ser conquistada. Mas, em biomassa, nós podemos ser campeões do mundo. A hidrólise de celulose, ou seja, a dissolução da lignina de modo a que toda e qualquer matéria vegetal possa se transformar em etanol ou em biocombustível, está a quatro ou cinco anos de distância. Nós temos a maior empresa de celulose do mundo, que já faz plantio de eucalipto para formação de corredores ecológicos entre fragmentos florestais e que pode usar seus rejeitos para a produção de biocombustível. E nós temos uma quantidade de pasto degradado inimaginável. Se alguém for plantar eucalipto numa mata ciliar, eu estarei lá me acorrentando às árvores. Se alguém plantar eucalipto em um lugar onde deveríamos reflorestar Mata Atlântica, vou usar meu celular para chamar os órgãos competentes. Mas se alguém for plantar eucalipto como corredor ecológico em pastos degradados, vou estar lá ajudando, porque a biodiversidade vai aumentar muito em relação a esses desertos que criamos com terras totalmente degradadas e sem biodiversidade nenhuma. E há um potencial gigantesco, porque existe muita terra nesse estado. Então nós podemos ser campeões em produção de biomassa, para produção de energia ou de outros materiais.

Há muitos anos (2004), tive a oportunidade de ouvir Fritjof Capra na conferência LBA (Experimento em Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), apoiada pela NASA, INPA e UE, em Brasília. Ele alertava para o perigo da banalização do termo Sustentabilidade, defendendo que a humanidade não tinha quase nenhum conhecimento sobre o que seria de fato sustentável. Os primeiros exemplos de exploração e manejo sustentável de florestas na Indonésia haviam começado há pouco e previam horizontes de 30 a 60 anos para estar concluídos, e só aí teríamos alguma noção sobre se eram ou não sustentáveis. Desde então, nunca mais olhei para o discurso sustentável da mesma maneira.

Já no mestrado, uma professora de biologia da conservação também defendia que as palavras “desenvolvimento" e “sustentável” seriam incompatíveis. Segundo ela, “desenvolvimento", no  modelo econômico atual, está ligado à ideia de “crescimento”, mas para atingirmos a sustentabilidade, precisamos parar de aumentar produções e de mirar em lucros crescentes. Precisamos pensar em aumento de eficiência com consequente aumento de produtividade, porém sem aumentar o uso dos recursos.

Você também, em 2012, declarou que “Desenvolvimento sustentável virou um termo genérico sobre o qual não sabemos quase nada; na verdade, a certeza que temos, no momento, é que o desenvolvimento atual é insustentável”. (durante o Debate Finep, no Rio).

O que podemos dizer em 2017 sobre a noção de sustentabilidade? Algo avançou? 

Avançou o conhecimento da ciência e a mensagem dela para todos nós, para os chefes de estado, para os empresários e para cada cidadão do planeta. Conhecemos mais o fato de que o tipo de desenvolvimento que temos hoje é insustentável. Há uma brincadeira entre os ecologistas que diz que a única coisa parecida com o nosso modelo econômico, cujo objetivo é apenas crescer e crescer indefinidamente, é a célula cancerosa. Ela também não quer saber de mais nada: só quer crescer e crescer, até matar o hospedeiro. Isso também ocorreria conosco, mas não com a natureza, porque o tempo dela é de milhões e milhões de anos. Se nós destruirmos tudo, o que o registro fóssil das cinco grandes extinções sugere é que cinco milhões de anos depois estará tudo aí de novo, de forma diferente, e sem nós. O que está em perigo são a humanidade e a natureza do nosso tempo, que nós temos todo o direito de amar. Mas a natureza, em si, vai permanecer se transformando, para além de nossa presença.

Mas para responder sua pergunta eu gostaria de distinguir um aspecto histórico concreto de um aspecto mais teórico. O histórico concreto é que há uma questão nos próximos 30 a 50 anos que diz respeito à crise das mudanças climáticas, à crise de biodiversidade, muito possivelmente também à forma como produzimos alimentos hoje, que é baseada em fosfatos nitrogenados, e esse é um dos muitos limites da existência humana. Tudo indica que as zonas mortas nos oceanos são causadas pelo excesso de nitrogênio e fósforo que usamos na agricultura, e isso não pode continuar. Vamos ter que lidar com esses problemas nas próximas três décadas, sendo que já estamos muito atrasados, não temos mais chances de fazer um bom negócio. Nossa escolha é entre um mau negócio - esquentar dois graus, extinguir várias espécies - ou um péssimo negócio - esquentar muitos graus e extinguir muito mais espécies. 

Por outro lado, é algo muito datado historicamente. Na segunda metade do século, a população humana vai começar a decrescer, com quase toda certeza. Isso porque em todo o mundo, quando você dá às mulheres acesso ao conhecimento, igualdade de oportunidades e liberdade sobre seus corpos, a opção das fêmeas Homo sapiens é ter menos filhos e cuidar melhor dos poucos filhos que têm. Além disso, as tecnologias serão bem mais eficientes para evitar desperdício de recursos. Mas como chegar lá? Como chegar em 2050 sem ter contratado um aumento global de 4 graus Celsius? Dois graus são considerados o limite do perigo pelos cientistas e chefes de estado que assinaram e ratificaram o acordo sobre mudanças climáticas. Esse é o limite do perigo não pelo que sabemos que vai acontecer de ruim. É também por isso, mas principalmente pelas incertezas, porque não temos sequer ideia do que vai acontecer. 

Como o planeta esquenta? Não é só pelo que emitimos de gases de efeito estufa, mas sim pelo seu estoque na atmosfera. Eles têm tempos de decaimento muito variados. O metano é em dez anos, o gás carbônico é em cem anos. Não adianta chegar em 2040 e dizer: "Chega, está grave demais, parou!”. O estoque já vai estar formado. Por isso temos uma circunstância que é histórica: para que haja chance de desenvolvimento sustentável, precisamos enfrentar estas três questões (nitrogênio/fósforo, crise de biodiversidade e mudanças climáticas), e o tempo é agora. O estoque está se formando. Já emitimos, somando gás carbônico e os outros gases, mais da metade da quota de carbono que poderíamos emitir até 2100. O ritmo em que estamos emitindo hoje pode durar apenas mais duas décadas até que se transforme em um aumento de temperatura - irreversível - maior do que 2 graus Celsius.  A curva de redução das emissões de gases tem que ser muito inclinada, precisamos fazer isso muito rapidamente, mas não estamos conseguindo. Um dos meus amigos economistas diz que primeiro teremos que infartar. Aí sim vamos mudar de vida. Ou não, mas a alternativa não é muito boa. Eu sou mais otimista, não por romantismo, mas porque acho que já estamos sofrendo angina, aquela dor no peito que prenuncia o infarto. 

Um profissional que trabalha com clima nunca vai dizer que um evento singular foi decorrente do aquecimento global. Clima é complexo demais. Trabalhamos com tendências, com probabilidades. Não posso dizer que o furacão Sandy, em NY, foi reflexo do aquecimento global. Não sei. Ninguém sabe. Mas é muito provável que seja. E se não foi, se a temperatura já não estivesse elevada em 0,8 grau, se o mar já não tivesse 20 cm a mais do que antes, o estrago do furacão teria sido menor. Além disso, é bem provável que outros furacões ocorram, porque eles são causados por uma diferença de pressão entre a do oceano e a da atmosfera. Só com Sandy, NY perdeu bilhões de dólares, sem contar as vidas. Guerra na Síria: não tem nada a ver com aquecimento global. Mas se não estivéssemos no quinto ano consecutivo de seca lá, um lugar onde já não existem tantos recursos hídricos, o ambiente seria diferente. Aqui no Brasil, por exemplo, nunca tivemos uma estiagem como a que aconteceu há alguns anos. Foi o aquecimento global? Não se deve dizer que sim, mas é muito provável que tenha sido. Então já estamos sofrendo efeitos muito significativos. Com tudo o que foi feito no estado de SP, no Brasil em geral, houve um pouco de jogo de pôquer nessa história. Se o verão de 2015/16 tivesse sido igual ao anterior, teríamos um desastre monumental. Milhões de pessoas teriam que se mudar. Brasília neste momento está em controle hídrico, e a temporada seca se aproxima, sem que as coisas tenham previsão de melhora. No mundo inteiro observam-se fenômenos desse tipo. As pessoas estão vendo essas mudanças. Acho que elas, somadas ao aumento do conhecimento e da consciência a respeito desses impactos, vão botar em ação as transformações necessárias para evitar um colapso decorrente de mudanças climáticas. Esse é o aspecto histórico concreto. Fazendo um mau negócio. Eu não acho que temos chances de esquentar apenas 2 graus, acho que vamos para mais. E parece pouco, mas é grave. Isso embora todas as tecnologias estejam disponíveis para evitar o aquecimento. Mas há muitos interesses a serem contrariados, econômicos, geopolíticos, há muita inércia…

O outro aspecto da sua pergunta é mais teórico. Os economistas agora estão começando a cumprir um pouco dessa missão. É muito contraditório para todos os economistas que justamente a ciência econômica tenha sido uma das últimas áreas do conhecimento a encarar o problema de frente. E o problema, se vivemos em um espaço finito - o planeta Terra -, é claro que vai atingir a todos. Agora os economistas já trabalham com a vertente teórica que você comentou, mas eu não concordo com essa contradição entre desenvolvimento e sustentável. 

Antes do ano 2000, comprei um livro chamado “Entrevista sobre o final dos tempos”. Eu estava interessado em três caras, Umberto Eco, Stephen Jay Gold e Oliver Sacks, mas ainda não conhecia o quarto entrevistado do livro. Tratava-se de Jean Claude Carrier, intelectual francês, roteirista dos filmes de Buñuel. A entrevista toda é maravilhosa e de lá pra cá acompanho o pensamento dele, um homem muito inovador. Ele chamava atenção para o fato de que, em praticamente todas as línguas, o inconsciente trai a palavra desenvolvimento. Trai no sentido de esclarecer. Não é crescimento, é desenvolvimento. Prefixo “des”, é desfazer o que está envolvido. “Development” é desenvelopar o que está envelopado. Desenvolvimento é o que as mães querem para os filhos. Cada um tem um potencial, o que a mãe quer é que o filho realize aquele potencial, que ele não fique envelopado, contido, que não deixe de realizar coisas que poderia realizar. Desenvolvimento é muito mais isso. Não é crescimento. Não vamos precisar de crescimento para bem-estar. A população humana vai diminuir. É perfeitamente possível imaginar muito desenvolvimento sem muito crescimento, utilizando tecnologias e mudando um pouco os valores. Grande parte do consumo hoje tem objetivo meramente ostentatório. Existem bons vinhos de R$ 80, R$ 200 reais, e vinhos de R$ 7.000. Quero saber o dia em que alguém bebeu um vinho de R$ 7.000 sozinho e não contou nada para ninguém! Se alguém está sozinho em casa, bebe um ótimo vinho de R$ 150. Quando bebe um vinho de R$ 7.000 é para mostrar para os outros. Alguém que compra um carrão, na verdade não precisa do carrão, quer exibir. No dia em que uma pessoa assim chegar com um carrão em uma universidade como a PUC, e a maioria das pessoas olhar aquilo como algo cafona, meio nojento, assim como aconteceu com o cigarro, as coisas vão mudar muito. 

Mas você acredita que é no luxo que está a maior parte do impacto ambiental?

Não é, mas ele é parte muito considerável. Dá até para quantificar. Em média, cada cidadão do planeta emite 1,4 toneladas de carbono equivalente na atmosfera. Um norte-americano emite 5,5 toneladas. Um africano, 0,4 toneladas. Europa, Japão, Estados Unidos, ricos e classe-média dos países emergentes são responsáveis pela maior parte do impacto ambiental e das emissões do assunto mais sério, que é mudanças climáticas. 

O que chamam de consumo consciente é importante, mas não resolve. Temos que precificar o dano. Emitir gases de efeito estufa esquenta o planeta, mata gente, reduz biodiversidade, mas não está no preço de nada. Tem que estar no preço de todas as coisas. Precificar começando pelas emissões, mas depois estendendo a todas as outras externalidades. Quer emitir? Quer ir de carro para o trabalho? Vai pagar bastante. E investiremos esse dinheiro compensando de outra forma. Hoje isso é muito difícil porque contraria os interesses econômicos estabelecidos, a geopolítica, mas crescentemente as pessoas tornam-se conscientes dos impactos. 

Há uma questão de governança global que precisa existir, pois a molécula de gás de efeito estufa não se importa com fronteiras políticas. Não estou falando de governo mundial. Eu particularmente não gosto muito da ideia de um governo mundial… quase que prefiro fritar no aquecimento global. Mas governança global, ou seja, capacidade de tomar decisões globais, precisa existir. E hoje isso não existe para nada. Não existe para a Síria, não existe para transações internacionais. Fazê-lo envolverá uma grande mudança. Mas a mentalidade dos jovens já está muito nessa linha. No conflito de Israel com o Irã, quando houve um momento mais tenso, um bando de jovens dos dois países entrou em contato pela internet e começou a trocar músicas, poemas e declarações, dizendo que não tinha nada a ver com aquele conflito. Esse tipo de coisa vai acontecer cada vez mais. É uma mudança muito profunda porque o ser humano, darwinianamente falando, é tribal. 

Somos intermediários entre chimpanzés e bonobos. O chimpanzé é um pouco mais tribal do que nós, até. Eles matam invasores, comem filhotes para deixar as fêmeas disponíveis de novo, fazem guerras… os bonobos não têm nada disso. Não têm infanticídio, não têm guerra territorial e quem manda são as fêmeas. Os humanos estão, segundo o grande primatólogo Frans de Waal, no meio do caminho. Os chimpanzés e bonobos também têm cultura, mas nós temos pensamento simbólico. Nossa cultura tem uma capacidade transformadora muito maior. Por isso temos a chance de nos tornarmos diferentes do que somos. Temos que deixar de ser tribais e passar a ser uma humanidade. Não pode existir racismo, intolerância religiosa, homofobia, xenofobia. A diversidade e a pluralidade têm que ser aceitas como um fato e uma riqueza, e assim nos tornarmos uma humanidade. E adquirirmos a governança global para fazer isso. É um período muito fascinante, um momento muito especial da história da humanidade, comparável ao Renascimento e ao Iluminismo. Muito maior do que qualquer evento do século XX. E eu sou historiador também, não estou falando uma frase fácil. O século XX teve a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, os anos 1920, a grande recessão de 1929, o New Deal do Roosevelt, o Nazismo, o Fascismo, o Estalinismo, a Segunda Guerra Mundial, Revolução Chinesa, Guerra Fria, Cuba, Vietnã, estou dizendo que tudo isso é pequenininho frente ao leque de escolhas que a humanidade tem pela frente nos próximos 30 a 40 anos. Mas, por outro lado, é também muito estimulante e desafiador. É preocupante,mas também é emocionante, porque é um enfrentamento de problemas graves para os quais nós temos as ferramentas: basicamente 7 bilhões de cérebros. 

O fato é que, se enfrentarmos esses problemas, estaremos construindo uma humanidade e um mundo melhores. Eu poderia dizer filosoficamente o seguinte: Quem nós somos? Em quem nos constituiremos nas próximas décadas? Ama o próximo. O cara que vai nascer daqui a 40 anos é meu próximo e, portanto eu ajo hoje, até assumindo alguns custos, em função do mundo que ele vai herdar? Ou eu não tenho nada a ver com isso e vivo minha vida sem ter nada a ver com essa história? Quem nós somos? É agora que vamos decidir