Expedição HouseBoat Amazon

Cazarré, Leticia. Expedição HouseBoat Amazon. 'CAUSE MAGAZINE, Rio de Janeiro, número 5 (edição NATURE). pp: 102 - 107  . Julho, 2017.

8 de março de 2017 - Dia Internacional da Mulher

 

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Acordei com a visão panorâmica do Rio Negro em Ponta Negra, Manaus. Um último olhar pela janela na paisagem tropical. Vejo uma figura emergindo das águas lentamente, em movimentos gentis. Tive que decidir rapidamente: câmera ou binóculos? Binóculos ganhou a tempo apenas de assistir à última aparição graciosa de um boto cinza. Que alegria! No meio daquela imensidão de água, bem na minha janela, o golfinho do rio parecia me receber de volta àquele lugar.

    Saí para o aeroporto de Manaus, com o objetivo de chegar a Eirunepé, uma pequena cidade no Rio Juruá, no coração da floresta. Foi o início de uma aventura exclusiva para 'CAUSE MAGAZINE na Amazônia brasileira.

    Uma vez em Eirunepé, me juntei a um grupo de quatro pesquisadores de todo o Brasil e do México. Fomos recebidos com enormes sorrisos por Lisley Lemos, gerente do Houseboat, e Laura Marsh, líder da expedição.

    Aprendi rapidamente algumas coisas sobre aquela líder não convencional. Por quase quarenta anos, a Dra. Laura K. Marsh dedicou-se à pesquisa, educação e conservação de primatas em todo o mundo. Dr. Marsh é a maior especialista mundial em um grupo de primatas chamado Pithecia ou “parauacus”, cujo gênero ela reescreveu e ainda nomeou cinco espécies novas para a ciência. Durante esse processo, ela foi a primeira a notar que uma das espécies (Pithecia vanzolinii) não tinha sido vista viva desde 1930 na região do Brasil onde fora originalmente coletada. Então ela decidiu lançar sua expedição científica a bordo de um barco na Amazônia para explorar uma área de aproximadamente 43.000 quilômetros quadrados, equivalente ao tamanho do estado do Rio de Janeiro.

    Antes de chegar ao Brasil, Laura nomeou a expedição "Houseboat Amazon". Ela preparou releases para a imprensa, criou um logotipo e um site oficial e convidou criativos para cuidar das mídias sociais da expedição dentro e fora do barco. Seu objetivo era tentar "conteúdo em tempo real na Amazônia”, e o barco tinha uma antena de satélite doada para fazer exatamente isso. “Um barco. Uma selva inexplorada. Um macaco desaparecido", dizia o slogan de abertura no site do Houseboat Amazon. Seguidores de todo o mundo conseguiram sintonizar e ver pela primeira vez a dedicação dos biólogos tropicais enquanto trabalhavam.

    Sem falar em português ou ter visitado a região antes, Laura reuniu uma equipe internacional de pesquisadores, jornalistas, fotógrafos, equipes e funcionários dos EUA, Brasil, Colômbia e México; conseguiu bolsas e fez crowdfunding totalizando mais de 100 mil dólares; equipou a casa flutuante com todo o tipo de suprimentos e tecnologia, incluindo um sistema de rastreamento SPOT vinculado às forças armadas brasileiras; e com sua vasta experiência na realização de expedições de pesquisa de campo em outros países, uma nova metodologia para pesquisa de campo, em uma grande região não estudada.

    Laura já era familiarizada com os desafios da Amazônia — tendo ela mesma contraído uma variedade de doenças infecciosas, como a leishmaniose e a febre hemorrágica da dengue —, mas estava confiante de que ninguém adoeceria quando mergulhavam na floresta mais biodiversa do mundo em busca de uma espécie desaparecida. E eles sobreviveram! Depois de quase quatro meses intensos de convivência em um espaço confinado, houve alguns solavancos, hematomas, pequenas quebras, gripe e outras doenças comuns de viagem, mas não grandes emergências médicas ou operacionais. Nenhuma. "O fato de que fizemos uma expedição completa sem grandes problemas, em uma região remota onde não havia maneira fácil de obter ajuda imediata caso tivéssemos uma emergência, talvez seja a façanha mais incrível dessa viagem”, orgulha-se Laura.

 Pôr do Sol na Amazônia, Comunidade Venezuela. Fotografia: Leticia Cazarré

Pôr do Sol na Amazônia, Comunidade Venezuela. Fotografia: Leticia Cazarré

 

Conhecendo o famoso barco

 

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Finalmente chegamos ao Houseboat Amazon, ancorado em Eirunepé. O barco, vermelho e verde, tinha dois andares e podia comportar até 20 toneladas de equipamento. Estava cheio de caixas e sacos de comida, suprimentos de campo, barris de combustível, redes, botas de borracha e dezessete pessoas (dezoito contando comigo). À primeira vista, parecia um caos, mas gradualmente meu olhar se acostumou e cada objeto parecia fazer sentido. Uma vez a bordo, toda a equipe se espalhou entre bancos de madeira, pilhas de mantimentos e ilustrações de macacos nas paredes, fazendo com que tudo parecesse mais habitável e menos lotado.

    Laura deu um passeio introdutório que incluía regras de segurança, uso de toalete e avisos úteis, como "não deixe as coisas no chão do andar de cima porque elas invariavelmente irão rolar para a água". O banheiro era, de longe, minha maior preocupação. Passei dias me perguntando se existia ou se eu teria que encontrar outro caminho... na floresta ou talvez sobre a borda do barco no rio? Mas existia e era de tamanho razoável (2 x 1,5 m). Para dar descarga, usávamos um balde de tinta vazio amarrado a uma corda, que devia ser jogada pela janela do banheiro e - chuáá! Era  o suficiente para derramar no vaso sanitário e deixa-lo pronto para o próximo usuário. Um tubo de PVC ligado ao teto foi nosso chuveiro, que despejava água do rio (armazenada no andar de cima do barco), e uma pessoa de 1,71 metros como eu precisava dobrar os joelhos para entrar sob o jato frio. Um banho por dia era a regra. E rápido.

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

 

9 de março de 2017

    

    Acordei com os primeiros sons da tripulação. E a impressão de que ainda era noite. Mesmo com a chuva da madrugada que fez a temperatura cair, dormi bem dentro de uma rede de poliéster comprada às pressas um dia antes da viagem. Minha rede ficava no andar de cima, pois não havia espaço para pendurar confortavelmente lá embaixo com os outros. Tentei virar para o lado e voltar a dormir, mas depois de muitos anos longe da floresta, eu estava animada demais e não me importava que ainda fosse  muito cedo! Girei as pernas para me livrar da rede, pisando no deck de metal frio.

    Depois de um café da manhã de ovos mexidos, cuscuz, aveia quente e café preto, Laura nos reuniu para uma série de reuniões. A primeira foi sobre o armazenamento de dispositivos eletrônicos e a sílica de secagem para gerenciar a tecnologia em um ambiente tão úmido. Então aprendemos sobre toda a parafernália para coleta de dados e onde guarda-la; como pedir ajuda direta ao exército brasileiro se algo de muito errado acontecesse; e protocolos de segurança para o barco, canoas e terra enquanto trabalhávamos dia e noite em florestas alagadas e não alagadas (chamadas de "terra firme”).

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Após a turnê técnica, passamos a falar sobre a trajetória de cada novo membro da equipe: um estudante de bacharel do México interessado em antropologia e ecologia; um pesquisador de São Paulo coletando dados sobre primatas, aves e plantas em florestas inundadas; e duas pesquisadoras do Rio Grande do Sul, recém-saídas do Mestrado, dispostas a viajar dois meses no Houseboat Amazon para aprender novas técnicas. E eu, separada da primatologia há sete anos, representando uma revista independente, ansiosa para registrar tudo quanto possível. Antes que me sentisse como um peixe fora da água entre tantos cientistas, Laura falou sobre sua própria trajetória profissional, que começa aos 18 anos com uma bolsa de estudos para coletar dados nas florestas tropicais do Panamá, passa pela fundação de uma organização internacional de conservação, uma revisão taxonômica de todo um gênero de primatas neotropicais, a criação de sua própria loja de quadrinhos e, há alguns anos, escrever roteiros em Hollywood! Bang! Bang! Agora eu entendi de onde surgiu um slogan tão pop para o projeto!

 

 

Ancorados à comunidade

 

    Depois de oito horas navegando a montante, chegamos em uma grande comunidade amazônica do rio Juruá: cerca de 25 pequenas casas de madeira alinhadas sobre palafitas acima da lama, onde o rio sobe sazonalmente para encontrar as pobres construções de varandas e passarelas de madeira. Havia muitas crianças - e ainda mais lama.

    Laura sugeriu que eu fosse com Lisley na nossa primeira abordagem para conhecer a comunidade. Nós subimos em uma canoa e remamos para uma frágil plataforma usada para lavar roupas e lençóis. Essa pequena estrutura flutuante, espécie de balsa amarrada às palafitas, levava a uma longa calçada onde me concentrei profundamente para não cair na lama. Chegamos a uma casa pintada de vinho e mostarda, onde o vice-presidente da comunidade nos esperava. Nos apresentamos, explicamos nossa intenção de "ver e fotografar os animais", e perguntamos se poderíamos estacionar os barcos e ficar por uma semana. Além de ser uma maneira fácil de encontrar guias locais para explorar a área circundante, ancorar os barcos perto das comunidades ribeirinhas é uma segurança. Sim, piratas da Amazônia, que chegam pelo rio, saqueiam e matam exatamente como nos filmes.

    Depois de receber a permissão da comunidade, retornamos ao barco para começar a preparação dos próximos dias. Outra tarde de instruções nos aguardava: estudamos métodos de coleta, definimos estratégias, nos familiarizamos com dispositivos tecnológicos (GPS, bússola, câmeras GoPro, binóculos, medidores de distância), cadernos de campo recebidos e cartões de amostra para coleta de dados. O contraste entre alta tecnologia e floresta amazônica foi surreal.

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    O projeto de Laura era, de certa forma, um "unicórnio". Normalmente, os pesquisadores brasileiros precisam lidar com condições muito mais precárias em termos de onde ficar, barcos menores e todo tipo de falta de recursos - incluindo salários baixos - para coletar seus dados. Ninguém ainda havia feito um projeto de primatologia dessa natureza na Amazônia, com tantos profissionais envolvidos, grandes barcos equipados para navegar ininterruptamente por áreas remotas por meses contínuos. É o projeto de uma vida.

    Depois que todos foram dormir e o barco estava quieto, acordei com barulhos altos na água, muito perto do barco. Demorei um tempo para perceber que deviam ser  os botos do rio. Quando consegui me livrar dos lençóis, saltei da rede, atravessei o mosquiteiro e segurei na grade para olhar para o rio escuro, eles já tinham sumido. Voltei cuidadosamente para a minha rede, tentando não caminhar muito para não acordar os outros lá embaixo. Mal consegui me acomodar quando os ruídos começaram de novo! Repeti o ritual para sair da rede - novamente sem sucesso. Era como se fizessem de propósito. Esses animais são muito inteligentes. A cada novo episódio, me via completamente no escuro, pés descalços no chão molhado pela umidade do ar, fitando as sombras da floresta na outra margem do rio e ouvindo a sinfonia de milhões de seres vivos escondidos nas sombras. É incrível o quanto a floresta é pulsante na escuridão noturna. Quando não se distinguem árvores - há apenas uma grande massa negra emitindo calor, vapor e barulhos tão intensos e diversos, em um conjunto volumoso que nos cerca por todos os lados - é possível enxergá-la como um grande organismo vivo. Voltei para a rede e depois de alguns minutos tentando dormir, eles estavam de volta, mas não ousei levantar. Surgiram duas ou três vezes mais e eu conseguia ouvir quando soltavam o ar com força pelos respiradores, no topo da cabeça. Que adorável (e frustrante!) maneira de ser colocada para dormir: respiração de golfinhos.

 

 

10 de março de 2017

 

    Passaria o dia com Alejandra, a especialista mexicana em antropologia biológica. Isso significava que eu não entraria na floresta ainda. Quatro dias desde que saíra de casa e tudo o que eu queria era estar na floresta! Claro que eu entendia a importância de se aproximar das comunidades e do peso da informação que apenas as pessoas locais poderiam trazer sobre o estado das florestas, os animais e como as relações entre humanos e primatas ocorrem. Eu só estava muito ansiosa para vestir minhas roupas de bióloga, colocar minhas botas, carregar minha mochila e voltar para a floresta. Para o trabalho comunitário, usei minhas roupas de campo, mas mantive as Havaianas nos pés.

    Ale sugeriu que tomássemos uma canoa com alguns membros da tripulação e fossemos até a floresta inundada em busca de frutas que os macacos comem. Poderíamos então trazer esses frutos para os ribeirinhos e pedir que nos dissessem o que eram, se os macacos ou as pessoas os comiam ou se tinham algum uso. No caminho, dois botos surgiram muito perto da canoa. Fiquei tão feliz em vê-los à luz do dia! 

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Na várzea, encontramos uma área para coletar frutas, algumas das árvores mais altas, que na floresta inundada foram mais fáceis de alcançar. As cheias nesta região tinham 20 m de altura ou mais, o que nos deixava bem próximos às copas das grandes árvores. Vimos um grupo de macacos-de-cheiro (Saimiri) enquanto trabalhávamos. Eu estava tão animada, avistei uma fêmea com filhotinho lindo nas costas! Quando movemos o barco à procura de frutas, descobrimos os macacos alvo da expedição: os parauacus! O macho "sentinela" deu o alarme e olhou para nós, ouriçado pela piloerecção (exatamente como um gato faria), tentando ser ameaçador. As cores do  pelo eram maravilhosas. Preto com raias brancas na maior parte do corpo e na metade inferior das quatro pernas, uma cor dourada cremosa. Os pelos das mãos eram brancos. O macho avançou em uma direção esperando que nós o seguíssemos, enquanto a fêmea e o juvenil fugiam para o lado oposto. Parauacus são conhecidos por esse comportamento com pesquisadores, e eu me perguntei se isso funcionava também com os predadores da floresta.

    À tarde, fomos a um pequeno espaço central na aldeia onde havia bancos e uma cobertura para nos proteger da chuva. Nos sentamos ali com algumas crianças e, em questão de minutos, várias mulheres e homens começaram a aparecer, juntando-se a nós, curiosos. Nem sempre é necessário entrar nas casas para conversar com toda a aldeia. A novidade se espalha tão rápido que é possível encontrar praticamente todos os moradores simplesmente sentando-se quieto. Alejandra escolheu voluntários de diferentes idades para participar de um "jogo de cartas". Elas traziam imagens de inúmeras espécies de animais que pedimos para separarem em dois grupos: "animais que você come" e "animais que você não come". Esse método simples nos permitiu aprender informações sobre seus hábitos de caça, suas presas favoritas, como eles prepararam a comida e até mesmo uma idéia da distribuição e abundância de espécies.

    Quando surgia uma oportunidade, Alejandra perguntava se havia algum animal de estimação ou partes do corpo de animais que pudéssemos ver. Ela me explicou que nesses momentos coisas incríveis apareciam: de macacos e pássaros presos em coleiras, a coleções de caudas de tatus, chifres de cervo, presas de porco selvagem, garras, penas e outros ornamentos derivados da caça. Curiosamente, essa comunidade não tinha primatas como animais de estimação, um hábito muito comum entre as populações ribeirinhas e indígenas. Tudo indicava que eles não caçavam mais macacos para comer e, então, não voltaram para casa com a prole das mães abatidas. Havia apenas papagaios e tartarugas vivendo lado a lado com porcos, cachorros e galinhas.

 

    Quando já tínhamos informações suficientes, voltamos para a nossa pequena canoa e atravessamos o rio para a outra metade da comunidade. Havia sete casas separadas da comunidade principal por cerca de 800 metros de rio. Os moradores dali eram claramente mais pobres do que as casas do outro lado, onde nosso barco estava ancorado. Novamente jogamos o jogo de cartas e aprendemos sobre esse grupo familiar afastado, cuja primeira casa tinha um homem e seus 21 filhos. Sua esposa havia morrido há alguns anos. Ele estava se recuperando de uma ferroada de arraia no pé esquerdo. As arraias costumam enterrar-se na areia nas margens dos rios e é comum para alguém que vive à beira do rio pisar nelas. Dizem que é uma dor lancinante e  que o veneno se espalha rapidamente pelo corpo. A solução, em uma área remota como esta, é fazer uma microcirurgia cortando a pele ao redor e removendo detritos do esporão e do veneno. Perguntei há quanto tempo o acidente havia ocorrido. Ninguém sabia como responder. Eles têm um relacionamento diferente com o tempo. Os dias e semanas não são usados como uma contagem precisa. O importante ali são as estações do ano: verão e inverno, chuva e seca. Alguém arriscou uma resposta: “Faz pra mais de um mês”, sem muita certeza.

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    As pessoas nas comunidades são muito ressabiadas com informações para estranhos. Uma das coisas que aprendi muito rapidamente é que os problemas em uma aldeia podem refletir os de uma grande cidade, mas há ainda menos recursos na selva. Isso inclui casos de incesto, violação, violência contra mulheres, escravidão infantil e outros crimes familiares que parecem terríveis demais para falar. Não há ninguém treinado em apoio à violência doméstica protegendo pessoas vulneráveis u ajudando-as a sair das garras de seus algozes. Nessas áreas remotas da Amazônia onde não há policiais reais, onde não há leis reais, mulheres e crianças podem tornar-se presas com bastante facilidade. Ali elas estão condenadas, reféns de homens que as maltratam, violentam e as forçam a dar à luz e cuidar de seus filhos, frutos de sucessivos abusos sexuais. Ouvimos algumas histórias dolorosas e deixei aquele lado do rio me sentindo irritada, triste e inconformada.

    Com a cabeça fervendo, uma idéia me ocorreu. Existe uma lenda em toda a Amazônia sobre botos cor-de-rosa que seduzem jovens e as engravidam. Naquele momento percebi que o mito foi criado para cobrir uma realidade nefasta: as meninas são submetidas a uma vida de estupro e aparecem "misteriosamente" grávidas. Lembro de quando estudei folclore brasileiro, e a lenda do boto dava a impressão de que as mulheres eram infiéis, desobedientes e dissimuladas. Ficavam grávidas de seus amantes, a quem protegiam culpando os encantos mágicos dos botos cor-de-rosa. O cinema brasileiro já registrou essa interpretação da lenda em "Ele, o Boto" de Walter Lima Jr. (1987), estrelado por Kassia Kiss e Dira Paes nos papéis das mulheres seduzidas. Mas na verdade, para as milhares de meninas do interior da Amazônia, a lenda do boto é muito mais macabra.

    Era um dia calmo e ensolarado, mas eu não aguentava mais, o nó na garganta aumentava. Sentei no chão do barco, cobri meu rosto com as mãos e chorei como uma criança pequena. Quando minhas lágrimas passaram, sugeri à Ale que tomássemos um banho em um igarapé próximo. Colocamos nossos maiôs, pegamos xampus, sabonetes, toalhas, um balde e saímos na canoa de madeira. Paramos em um lugar bonito, cercado por árvores floridas. Enchemos o balde e tomamos banho em cima da canoa, a salvo dos peixes elétricos. É surpreendente o poder da água do rio para curar a dor e acalmar o coração.

 

11 de março de 2017

 

    Hoje seria meu primeiro dia em "terra firme" desde a nossa chegada. Embora eu já tivesse passado algum tempo na floresta alagada, estava ansiosa para sair e caminhar por terra para ver coisas novas. Guias locais confirmaram a existência de barreiros na área (locais rebaixados onde os animais da floresta se reúnem para lamber argila cheia de minerais), e queríamos instalar câmaras ocultas para filmá-los durante a noite.

    "The Great Camera Trap Debate", como Laura chamou, porque discutimos as questões por quase duas horas, aconteceu na noite anterior. Os guias locais não acreditavam que as mulheres, que eram as que queriam colocar as câmeras durante o dia, podiam caminhar as distâncias necessárias até os barreiros. Eles insistiram que seriam 5 horas só de ida. Os dois homens estavam lutando para nos convencer de que os barreiros ficavam longe demais, que a trilha era muito difícil para nós, e que seria melhor desistirmos da idéia. Quando perceberam que nenhuma de nós estava intimidada, os homens conversavam um com o outro de uma maneira tão cheia de expressões locais e com um acento tão característico que não conseguimos entender muito do que disseram. Depois de alguns minutos, eles se viraram para nós e deram o veredicto: um deles nos levaria para duas trilhas próximas, a cerca de duas horas a pé. Descontentes, mas sem ter outra opção segura, aceitamos a proposta.

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Saímos às 5:30 da manhã. Nosso guia escolheu um caminho que não havia sido usado há algum tempo, e ele precisava abri-lo com um facão. Em silêncio absoluto, eu e Alejandra o seguimos, em baixa velocidade, tentando fazer o menor ruído para não assustar nenhum animal. A maneira mais fácil de perceber a presença de primatas e outros animais arbóreos é pelas vocalizações e movimentos bruscos dos ramos nas copas das árvores. É preciso experiência para ouvir e identificar os animais antes mesmo de vê-los. Entre canções de dezenas de pássaros, anfíbios e insetos, um primatólogo e seu guia precisam saber exatamente quando estão ouvindo um macaco. Por vocalização, muitas vezes já sabem de que tipo é. O peso dos primatas que se deslocam através dos ramos finos e flexíveis do dossel também pode ser visto a vários metros de distância, mas algumas espécies são bastante discretas, como é o caso dos macacos bugios e do parauacus.

    Na nossa caminhada para o barreiro vimos um grupo de macacos-prego, (o maior deles) Sapajous, valorizada como comida por outras comunidades, bem como grandes aves muito apreciadas pelos caçadores locais. Chegando ao nosso barreiro, vimos pegadas de antas, pacas e cervos. Nós colocamos cuidadosamente as câmeras onde provavelmente passariam os animais. O resultado das câmeras só seria visto três dias depois, quando outra equipe retornaria para coletá-los.

    À noite, jantamos com o pessoal e um dos guias perguntou se eu queria ver os guaribas (ou bugios) - meus primatas favoritos! - de manhã cedo. Concordamos que o barco partiria às 4:30 no dia seguinte.

 

12 de março de 2017

 

    Na aurora escura, nosso guia veio nos pegar com duas canoas amarradas. Anamelia, jovem pesquisadora do Instituto Mamirauá, e seu guia entraram na segunda canoa. Silenciosamente, entramos na várzea inundada, onde os bugios já estavam gritando. A vocalização dos guaribas é assustadora de perto: parece um motor gigantesco ou pior - um monstro. É de outro mundo.

    Quando chegamos à árvore, cada canoa foi em direções opostas para otimizar o esforço de amostragem. Torci para que algum indivíduo mais vagaroso estivesse em cima de nós quando a luz começou a invadir as copas e atravessar os espaços entre as folhas, mas não vi nenhum. Paciência: na primatologia de campo, essa é uma das lições cruciais. Às vezes, você vê o que está procurando, às vezes não.

    Continuamos remando da forma mais silenciosa possível, procurando qualquer movimento que pudesse indicar a presença de animais nas árvores próximas. Remamos a manhã inteira, às vezes ficando emaranhados em galhos baixos, às vezes usando toras para impulsionar a canoa com nossas mãos. À medida que avançávamos, tínhamos que remover galhos, espinhos, folhas, teias de aranha e cipós que nos agarravam o tempo inteiro. Laura tinha me alertado: "você vai entrar em um ambiente que fará de tudo para pegar suas coisas e puxá-las para fora do barco. Mantenha a câmera e os binóculos pendurados em seu pescoço e sua mochila no fundo da canoa”. Parecia exagero, mas era verdade. Um ecossistema inteiro caiu sobre nós: aranhas, besouros, louva-deus, formigas e até mesmo uma pequena cobra cinza que eu só vi porque tive que me virar para empurrar um tronco para nos tirar de um trecho raso. A cobra escapou da canoa em segundos, desaparecendo nas águas enlameadas da várzea antes mesmo que eu pudesse sentir medo.

 Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Pedi para o guia me informar quando visse uma preguiça. Ele olhou para trás, rindo debochadamente: “Vai ser difícil, mas te aviso se aparecer uma". Fiquei pensando se eu tinha dito algo errado, mas em menos de cinco minutos o homem virou-se para mim, incrédulo. Apontou para uma preguiça bem na nossa frente, enrolada no alto de uma árvore, dormindo. Rimos juntos e tirei as melhores fotos! Ela acordou, olhou diretamente para nós com seu sorriso vagaroso. Foi emocionante. A partir daí, meu guia e eu estávamos em pura sintonia. Com sua ajuda vi diversos grupos de macacos, conheci o rato-coró, com sua cauda felpuda e bigodes enormes, filmei um esquilo vermelho frenético saltando pelas árvores e até fomos bombardeados com frutas jogadas de cima por macacos-de-cheiro. Tudo isso enquanto permanecíamos sentados em nossa canoa estreita, úmida e cheia de ecossistema.

    Continuamos nossa busca pelos bugios, mas precisamos entrar em uma seção mais fechada de floresta inundada. Meu guia disse: "você terá que tirar suas botas para ajudar". Ele quis dizer que enfrentaríamos trechos rasos demais para navegação, cheios de troncos caídos, e certamente precisaríamos de duas pessoas empurrando a canoa. Tirei as botas e entrei na água. Mantive as meias, porque dava muito medo pisar sem ver onde — como se elas pudessem me proteger contra espinhos, cobras, jacarés e outras criaturas debaixo d'água!

    Tivemos sorte. Dentro de alguns minutos, cruzamos a primeira linha de toras e logo voltamos para dentro da várzea. Remamos um pouco mais e ouvi o guia dizer: “o guariba!”. Demorei muito para enxergar o bicho, que estava metido no meio de um grupo de outros  pequenos macacos barulhentos e agitados. Consegui fazer apenas duas fotografias e, mesmo assim, só da barriga e genitálias. Pelo menos sabíamos que era um macho adulto! Camuflou-se na copa da árvore e desapareceu. Cansados, após sete horas de busca, remamos em direção ao rio com a sensação de missão cumprida.

 Coandu, ou Ouriço-Caixeiro. Fotografia Ana Amélia. Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Coandu, ou Ouriço-Caixeiro. Fotografia Ana Amélia. Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

    Quando voltei ao barco, uma dupla de pesquisadores se preparava para uma pesquisa noturna na floresta alagada. Pedi para ir junto porque meu tempo no barco estava terminando e eu queria viver o máximo de experiências possível. Reunimos fortes lanternas para focar nos animais quando a escuridão tomasse conta da mata. Pode ser realmente assustador estar na floresta quando a noite cai. Nossa estratégia era ficar dentro da canoa o tempo todo e percorrer um transecto linear imaginário, remando lentamente enquanto as luzes das lanternas varriam as copas das árvores. Parávamos a cada 15 minutos e desligávamos todas as luzes. A idéia por trás do método era a de "desaparecer na noite", passando despercebidos pelos animais, quando então  voltávamos a acender as luzes, pegando-os em flagrante. As sombras que se deslocavam pela vegetação enquanto escaneávamos com as lanternas tornavam tudo ainda mais horrível. Uma das vezes em que reacendemos as lanternas, vimos um macaco da noite! Pouco depois, ouvimos um som caindo na água, a dois metros da canoa. Algum animal pesado oltou-se de um ramo e mergulhou quando nos aproximamos — provavelmente uma grande cobra. Eu não disse que era assustador?

    Vimos ainda muitos jacarés, cujos olhos brilham com a luz das lanternas, para logo depois submergirem, suave e assustadoramente. Um lagarto correu sobre a superfície da água, em pânico. As aves, quando nos viam, batiam asas e fugiam em disparada. Vimos minúsculos ovos fluorescentes presos aos troncos das árvores, e muitas aranhas, diferentes das que apareciam durante o dia. Apesar do medo, a excitação falava mais alto e cumprimos com rigor nosso planejamento, voltando ao barco após a meia-noite. Que dia! Que aventura! Sãos e salvos, tomamos banho — com os joelhos flexionados — e fomos dormir esgotados. Um dia memorável.

 

 

13 de março de 2017

 

    Meu último dia no Houseboat Amazon! O dia anterior tinha sido longo e cheio de emoções, então Laura sugeriu que nós duas tivéssemos um "dia de barco". Precisávamos elaborar detalhes sobre a história do Houseboat Amazon para  a 'CAUSE e tirar mais fotos, especialmente da aldeia e seus habitantes. Improvisamos uma "sala de reuniões" em um banco de madeira no andar de cima do barco, com vista para o rio e para a floresta. O sol batia com força no chão de metal e sentíamos o calor refletido nos nossos rostos. Mosquitos e piúns não davam trégua, e a reunião era interrompida de quando em quando para um reforço nos repelentes.

    Foi só então que eu pude realmente entender quem era Laura Marsh. Conversamos sobre os motivos que a levaram ao Houseboat Amazon. Compreendi que, embora houvesse um longo e desafiante caminho a ser percorrido para uma cientista estrangeira que estabeleceu vínculos com instituições brasileiras apenas um ano antes, era de fato possível implementar um projeto importante e de longo alcance como o dela. Suas experiências anteriores em países remotos e muitas vezes perigosos contribuíram para que ela estivesse segura na liderança de uma equipe de homens de Cruzeiro do Sul e de pesquisadores de diferentes nacionalidades.

 Fotografia: Leticia Cazarré

Fotografia: Leticia Cazarré

    Apesar de ser uma das maiores especialistas em sua área - revisar um gênero inteiro de primatas é um trabalho que, por si só, pode levar uma vida -, não se limita ao papel de cientista.

    Laura não é uma primatóloga típica. Apesar de ser uma das maiores especialistas em sua área - revisar um gênero inteiro de primatas é um trabalho que, por si só, pode levar uma vida -, não se limita ao papel de cientista. No Novo México (EUA), gosta de caminhar pelas montanhas locais no verão e fazer snowboard no inverno. Compartilha um escritório em Los Angeles com um consórcio cinematográfico, onde seus colegas escrevem, executam, produzem e lançam filmes, TV e documentários. Além disso, fundou e administra uma organização não governamental para conservação, o Instituto de Conservação Global. E a loja de quadrinhos? "Ainda existe online", ela responde, sorrindo como alguém que está acostumada a surpreender.

    Sua multiplicidade me lembra a dos exploradores históricos das florestas tropicais, cujas biografias incluem grandes descobertas e formações tão diversas que hoje nos soam quase como super-poderes. Além da primeira naturalista no Brasil, Maria Graham, que era também escritora e ilustradora (e me inspirou a escrever esses relatos de campo), posso citar inúmeros outros. Ernst Haeckel era biólogo, naturalista, filósofo, médico, professor e artista, e ajudou a popularizar a teoria de Darwin com suas ilustrações científicas. Carl von Martius foi médico, botânico, antropólogo e um dos mais importantes pesquisadores a estudar a amazônia brasileira. O que os diferencia de meros aventureiros e ecoturistas é o fato de que todos esses pesquisadores (passados e contemporâneos), são comprometidos com a produção e difusão do conhecimento, e as informações coletadas por eles passam a integrar o acervo da humanidade. Laura Marsh, uma verdadeira cientista do século XIX, adicionou a esse escopo as mídias sociais como plataformas de divulgação científica para um público não especializado: "sempre quis ser uma criadora de conteúdo cultural". 

    Conhecê-la foi entender que não há limites - seja eles acadêmicos, culturais ou criativos. Cada um de nós pode ser muitos. Fazemos parte de um planeta redondo, globalizado, cheio de particularidades, delicadezas, mistérios e força. Somos todos cidadãos deste mundo de possibilidades infinitas. É bom que seja assim.

 Encontrado o primata mais procurado dos últimos anos! Pithecia vanzolini. Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

Encontrado o primata mais procurado dos últimos anos! Pithecia vanzolini. Cortesia de House Boat Amazon e Global Conservation International

 

14 de março de 2017

 

    No dia seguinte, dei adeus aos amigos que fiz na expedição. Quando cheguei lá, desejava a floresta e as aventuras, que agora ficaram para trás, mas saí com olhos frescos voltados para o futuro. A partir dali, esta primatóloga saiu de cena e reentrou no mundo como uma tradutora entre ciência e público. Trouxe comigo meu diário de campo para publicá-lo aqui nesta revista. Como a paz dos botos do rio, sei que há mais histórias a serem contadas sobre ciência e natureza do que podem ser vistas na superfície.

 

    Assino embaixo como bióloga, jornalista, editora e diretora criativa.

    Just be'CAUSE.