Musk, Marte e O Futuro da Humanidade

por Leticia Cazarré, direto de Austin.

 

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Na manhã fria do primeiro domingo de South by South West, uma fila incomum tomou conta do Centro de Convenções de Austin. Infindável, a cada minuto mais e mais pessoas se posicionavam à espera de conseguir ingressos para um evento surpresa, disparado por email para milhares de participantes na noite anterior: a presença célebre de Elon Musk, após 4 anos desde sua última aparição no maior festival de inovação, tecnologia e criatividade do mundo. A espera valeria a pena. Quem conseguisse os ingressos veria de perto um dos maiores gênios contemporâneos da humanidade. 

    Fundador de duas das empresas mais inovadoras do mundo, Tesla e SpaceX, Musk respondeu às perguntas do público ao longo de quase duas horas e ainda dançou e cantou com a ajuda de seu irmão, Kimbal Musk, que tocou a música “My Little Buttercup”. Desafinados, os dois certamente teriam falido se tivessem que contar com suas habilidades musicais. Ainda bem que investiram em negócios mais vanguardistas. 

    Perguntado sobre como seria a primeira colônia humana em Marte, Elon foi do extremo otimismo ao pessimismo sincero, provocando risadas nervosas no público. “Quando finalmente conseguirmos construir a tecnologia que nos levará a Marte e outros planetas, haverá uma explosão de oportunidades de empreendedorismo, porque teremos que construir toda a infra-estrutura básica que permite a sobrevivência humana”, disse Musk. “Em compensação, os primeiros que forem enfrentarão verdadeiros perigos: a maioria vai morrer e os que sobreviverem serão muito sortudos”. 

    Em relação aos avanços mais promissores da SpaceX nessa direção, ele garante que as naves espaciais para Marte estão prontas para, já no ano que vem, iniciarem os testes de vôos curtos (up and down) e que o mais incrível é que suas naves conseguiram reduzir os custos do retorno -- grandes vilões de outros programas espaciais. “Mas quero ter a certeza de que, quando chegarmos lá, teremos o ambiente necessário para que o empreendedorismo floresça”, prevê, enquanto todos observam atônitos. 

    Durante a sessão de perguntas, mediada por Joahn Nolan (co-criador da série Westworld), foi exibido o trailer de lançamento do  foguete Falcon Heavy levando para o espaço um carro esportivo da Tesla. Produzido pelo próprio Nolan, o vídeo mostra não apenas o sucesso do carro entrando em órbita, mas também os propulsores do foguete retornando à Terra e pousando suave e sincronizadamente no Cabo Canaveral. “Minha ideia era inspirar. Se você consegue fazer as pessoas olharem para o planeta Terra de fora, elas se sentirão inspiradas a focar nele e a cuidar dele. A meta era fazê-las acreditar que tudo é possível”, defende Musk. No painel do veículo, a frase “Made on Earth by humans”, parece escrita para um eventual encontro com vidas inteligentes fora do nosso planeta. Mais inspirador, impossível.

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    Ao contrário do que muitos pensam, Musk diz que não vê o mundo como algo que precisa ser consertado. “Vejo apenas algumas coisas que não funcionam. No caso da SpaceX, eu ficava me perguntando por que não havíamos mandado ninguém para Marte, por que não tínhamos ainda hotéis por lá e todas essas coisas dos filmes de ficção científica”. Ele conta que fez uma viagem à Rússia e, assim que voltou de lá, começou a ler muitos livros sobre foguetes. “Havia alguma coisa errada na forma final”. Ele resolveu, então, arriscar. “A única coisa que precisou mudar foi a propulsão. Mas naquela época não tive coragem de pedir investimentos dos amigos porque eu não queria gastar o dinheiro deles com algo que podia dar errado, então gastei o meu”. Só que as coisas custaram mais caro e demoraram mais do que ele imaginava, e Musk teve que colocar todo o seu dinheiro no negócio. “O ano de 2008 foi terrível, tivemos o terceiro fracasso do foguete, a SpaceX quase faliu”. Pouco depois, a quarta tentativa foi bem sucedida, salvando a empresa: “nós conseguimos lançar com sucesso na última hora do último dia”.

    Mas talvez o maior dilema de sua vida tenha vindo logo depois disso. Em um dado momento, Musk diz que tinha pouco dinheiro na conta e precisava decidir se o dividia entre as duas empresas, correndo o risco de ambas falirem, ou se investia tudo em uma só, deixando a outra morrer. "Quando você coloca sangue, suor e lágrimas em algo, aquilo é como um filho. Como eu poderia deixa-lo morrer de fome? Então decidi dividir o dinheiro entre as duas empresas e, felizmente, as duas prosperaram”. A essa altura, a platéia já estava totalmente envolvida. Naturalmente, surgiram dúvidas sobre os planos de negócio das empresas. Alguém que decide investir em uma empresa de foguetes deve estar preparado para tantos erros, certo? “Eu nunca tive um plano de negócios. Quer dizer, fizemos um há dois dias atrás, mas já vi que tem muitos erros. Normalmente seguimos nossa intuição”. 

    Musk tem ainda outra empresa, mais jovem, curiosamente chamada de Boring Company, cujo propósito é priorizar a locomoção de pedestres e ciclistas. “Passei anos dizendo pra todo mundo que havia uma grande oportunidade no mundo moderno para a construção de túneis. Mas ninguém me ouviu, então resolvi construir eu mesmo.” Mas e os carros voadores, Elon? Não estava na hora de colocarmos os carros pra voar? “Sempre que me perguntam isso, devolvo com a seguinte questão: você gostaria que seu vizinho tivesse um carro voador? Imagine um mundo onde cada um de nós tenha um desses!”, diz ele, arrancando risadas do público.

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    Já quando o assunto é inteligência artificial, Musk adquire um tom mais sombrio. “Estamos muito perto de romper barreiras na Inteligência artificial, o que me assusta muito”. Ele cita o exemplo de AlphaZero, supercomputador que pode ler as regras de qualquer jogo no mundo e, poucos minutos depois, ganhar dos melhores jogadores e dos melhores computadores já treinados anteriormente. "Outra área em que veremos grande avanços da IA é nos carros auto-dirigidos. No ano que vem, eles serão pelo menos 100% mais seguros do que os carros dirigidos por humanos”. E apesar de não acreditar muito em regulações, ele defende que as melhorias na inteligência artificial acontecem em um nível tão rápido que precisamos garantir que seu avanço seja simbiótico com a humanidade. “Neste caso o perigo é muito grave para o público. É algo que vai atingir toda a humanidade”, professa, Musk. E continua: “O perigo da IA é muito maior do que o das armas nucleares. Muito. Por que ninguém está controlando isso? É necessário que haja um órgão público que supervisione e garanta que estejam desenvolvendo IA com segurança”. E para quem pensa que é exagero, ele completa: "essa é a missão mais importante que a humanidade tem para realizar agora”. 

    Por esse e outros motivos, Musk leva em conta uma eventual Terceira Guerra Mundial. “Não é que eu esteja prevendo que ela vá acontecer, mas se olharmos para a nossa história e aguardarmos tempo suficiente, veremos que é bem provável que aconteça”. Nesse caso, ele acredita que precisaremos garantir que haverá pessoas, sementes e outras formas de vida suficientes fora da Terra para que possamos recolonizá-la após a guerra. “Marte é nossa melhor aposta agora, pela proximidade e porque podemos fazer isso rápido”. Se um dos homens mais visionários do planeta prevê esse cenário, quem haverá de contradizer? Musk caminha a passos largos e parece mesmo querer salvar a humanidade. De si mesma. 

    Por ora, no entanto, temos outros grandes problemas para resolver, como as mudanças climáticas provocadas pelas emissões de carbono na atmosfera do nosso próprio planeta. A contabilidade, segundo Musk, é categórica: “Qualquer coisa que libere carbono na atmosfera provoca transformações dos seus processos e isso precisa ser precificado. Do contrário, teremos um grave erro de custos sendo cometido, e erros costumam cobrar a conta lá na frente". Para ele, é muito importante que governos e público se posicionem para que os preços do carbono sejam colocados corretamente. Mas antes que o acusem de estar pensando nos futuros lucros de sua empresa de carros elétricos, ele dispara: “digo isso como um homem que lança foguetes, e eles também liberam gás carbônico na atmosfera. Repito, precisamos colocar um preço nas emissões de carbono, isso é urgente". 

    Para aplacar os aflitos da Terra, então, uma última pergunta. Como será que ele enxerga o nosso mundo no futuro? “Seria bom que tivéssemos uma forma de limpar a água dos oceanos”. 

    Do espaço ao mundo subterrâneo, da atmosfera aos mares, nada parece escapar ao radar biônico de Elon Musk.