EXPEDIÇÃO PARQUES NACIONAIS DA CALIFÓRNIA 

Cazarré, Leticia e Juliano. Expedição Parques Nacionais da Califórnia. 'CAUSE MAGAZINE, Rio de Janeiro, número 5 (tema NATURE): pp: 204-215. Julho, 2017.

 

PROJETO ESPECIAL ‘CAUSE + FYI

texto e fotografias Juliano Cazarré e Leticia Cazarré

 

"Porque entrar nas montanhas é como ir para casa. Nós sempre achamos que os objetos mais estranhos dessas áreas selvagens são, em certo grau, familiares, e nós os observamos com um vago senso de já tê-los visto antes.”

John Muir

 

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Juliano entrando nas florestas do Yosemite pela primeira vez.

Juliano entrando nas florestas do Yosemite pela primeira vez.

 

A natureza protegida

    Desde que as primeiras mentes perceberam que as ações humanas levavam à degradação crescente de áreas naturais, vozes a favor da preservação de regiões de especial beleza passaram a se pronunciar. Dentre eles, George Perkins Marsh, diplomata americano, considerado por alguns como o primeiro ambientalista dos Estados Unidos. Marsh, que não enxergava o homem como parte da natureza, escreveu em seu livro “Man and Nature" (1864) que o ser humano era, em qualquer lugar, um agente perturbador.  

    Contemporâneo de Marsh e inspirado por seus escritos, John Muir, escocês naturalizado americano, foi um aventureiro, inventor, escritor e ambientalista do século XIX. Mas, ao contrário de Marsh, Muir sempre entendeu o homem como uma porção importante do mundo natural. Em 1876, publicou o ensaio "O primeiro templo de Deus: como devemos proteger nossas florestas?”, denunciando a rápida extinção das sequoias gigantes, árvores nativas que chegam a viver milênios, mas estavam sendo dizimadas pelo crescimento desordenado. Essa peça deu ao público uma visão nítida da destruição florestal no país e foi importante para que a região das sequoias ganhasse proteção federal. 

    Depois de descobrir os fascínios da Califórnia e da região conhecida como Yosemite, Muir fez de suas montanhas e vales seu verdadeiro lar. Seus textos traziam um misto de poesia, encantamento e observações científicas minuciosas dos lugares que explorava (em geral sozinho), e chamaram atenção de figuras importantes de seu tempo, como editores e políticos. Em 1901, publicou o livro "Nossos Parques Nacionais”, que o levou a receber a visita do então presidente Theodore Roosevelt. Desse encontro improvável entre um explorador das montanhas, morador de uma cabana rústica em Yosemite, e o homem mais poderoso da nação, surgiu o programa de conservação do governo Roosevelt. 

    Mas por que falar tanto sobre os EUA e seus primeiros ambientalistas? Porque essa foi a primeira nação do mundo a criar uma Unidade de Conservação. O Parque Nacional de Yosemite, graças aos esforços de Muir, foi o primeiro a ser decretado como área de preservação, em 30 de junho de 1864, pelo então presidente Abraham Lincoln, que usou o termo “inalienável em qualquer tempo” para definir sua proteção permanente. Mas foi apenas alguns anos depois que o Congresso Americano aprovou a criação do Parque Nacional de Yellowstone, tornando-o oficialmente a primeira unidade de conservação do mundo. 

    Há quem diga que essa foi a melhor ideia que os americanos já tiveram (“America's best idea”). Considerando-se que, de lá para cá, o modelo foi exportado para praticamente todas as nações do planeta, garantindo a conservação de áreas importantíssimas para a natureza e para a humanidade, é bem provável que tenha sido. Em uma edição da ‘CAUSE dedicada à natureza, não poderia faltar um olhar sobre essas áreas naturais especialmente protegidas. Escolhemos explorar três Parques Nacionais no país onde eles foram inventados. Ao longo de dez dias, percorremos 1.700 km de rodovias e muitos outros a pé, dentro dos Parques Nacionais de Yosemite, Death Valley e Joshua Tree. No caminho entre um e outro, visitamos ainda outras unidades de conservação, como Florestas Nacionais, Parques Estaduais e áreas de vida selvagem conhecidas como Wilderness. 

    Inspirados por John Muir, desejamos que todos vejam o que existe, de nosso, no mundo natural: “Vá, de tempos em tempos, ver a vida selvagem”, escreveu em seu diário, em 1874, a caminho do Vale de Yosemite. “Fique perto do coração da natureza… e fuja para longe, de vez em quando, para subir uma montanha ou passar uma semana na floresta. Lave sua alma."

        Curta, nas próximas páginas, a expedição da 'CAUSE MAGAZINE aos Parques Nacionais da Califórnia,  que contou com o apoio da FYI, e aventure-se você também nos verdadeiros santuários do planeta Terra. 

 

Yosemite National Park, Junho 2017

Yosemite National Park, Junho 2017

Botas da FYI feitas para a aventura!

Botas da FYI feitas para a aventura!

 

Diários de viagem

 

    Quando chegamos aos EUA, encontramos nas bancas uma edição da revista GQ Style, estrelada por Brad Pitt. O ensaio fotográfico, clicado por Ryan McGinley, trazia Pitt em três Parques Nacionais americanos — uma coincidência que nos pareceu auspiciosa. Se uma das grandes revistas de moda do mundo (sendo a moda, em si, não propriamente afeita ao cuidado com o meio ambiente), estava abrindo os olhos e exaltando o sublime das áreas protegidas de um país cujo novo presidente sequer acredita em aquecimento global, bem, então talvez existisse uma luz no fim dessa névoa de efeito estufa! 

    A carta do editor Will Welch dizia que o momento mais memorável daquele ensaio não fora ver Brad Pitt rolando das dunas no Monumento Nacional de White Sands, mas sim a explicação que receberam antes da sessão de fotos, nas palavras de um guarda florestal: “Nossa prioridade aqui é proteger os recursos naturais. Nossa segunda prioridade é proteger a experiência dos visitantes. Isso significa que o seu ensaio fotográfico não está na nossa lista de prioridades. Estamos muito felizes em tê-los aqui. Esperamos que tenham um excelente trabalho. Mas se vocês perturbarem os recursos naturais ou a experiência dos nossos turistas, não teremos dúvidas em revogar sua permissão e escoltá-los até a porta de saída.” Welch prossegue, como quem entendeu o recado: “o que o guarda florestal quis dizer foi que os Parques são para as pessoas — cidadãos americanos, turistas estrangeiros e para as gerações futuras. Só no ano passado, os Parques americanos receberam 300 milhões de visitantes. E, da forma como vejo, nossos Parques são um dos assuntos em que nosso país dividido pode concordar.

 

 

    Mas nem todos concordam quando o tema é a proteção de terras nos EUA, que vive um momento crítico para o ambientalismo. O presidente Donald Trump, além de retirar milhões do orçamento de instituições ambientais do país, defende a liberação de terras públicas para exploração econômica através da mineração, extração de petróleo, carvão e gás natural (posição bastante coerente com sua decisão de retirar os EUA do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas). Para isso, acaba de assinar um ato executivo ordenando a revisão de uma série de unidades de conservação criadas nos últimos 20 anos sob a proteção do chamado “Antiquities Act”, de 1906 — que confere ao chefe de Estado autoridade para designar, unilateralmente, terras públicas como monumentos para proteger objetos de interesse histórico e científico. Obama foi o presidente que mais se valeu dessa lei, protegendo, ao longo dos dois mandatos, mais áreas do que todos os seus antecessores  —  a maior parte delas, nos oceanos. 

 

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    Chegamos ao Parque Nacional de Yosemite a sonhar com colinas e montanhas selvagens, bosques de juníperos cobertos de pinhas e uma sinfonia de insetos interrompida apenas por um urso negro afiando as garras num tronco caído. Confirmamos que estavam todos lá, montanhas, bosques,  pinheiros e pinhas, muitos animais e também uma multidão de turistas que visita o Parque diariamente. Carros, trailers e caminhonetes, aos milhares, queimam combustível em busca do estacionamento mais próximo da atração ecológica desejada – são muitas as opções – pois, ao longo do dia, as vagas tendem a acabar. E todas essas pessoas, as que vem de fora e as que estão acampadas em barracas e trailers, ou hospedadas nos hotéis (sim, hotéis!) do Parque, circulam em ônibus até chegarem ao começo das trilhas. Um supermercado perto do Centro de Visitantes vende tudo que se pode precisar na trilha: de água a mochilas, de protetor solar a bota impermeável e, claro, miríades de chaveiros, canecas, ímas de geladeira... 

 

Abastecidos de frutas, barras de castanha gourmetizadas, chocolate 70% cacau e água, nos juntamos a uma corrente infinita de pessoas que enfrentaram a trilha Upper and Lower Yosemite Falls naquele dia quente de primavera. Ao longo dos 12 km da trilha íngreme, passamos por gente do mundo inteiro, de absolutamente todas as idades: bebês em mochilas, crianças, jovens, adultos e idosos. Em meio a tanta gente, talvez fosse até difícil encontrar um momento de paz, mas a imponência da natureza é inescapável. Tudo se resume a você e à montanha. Para completar o trajeto, um dos mais longos que se pode fazer em apenas um dia, é preciso concentração e foco. A cada curva, a cada clareira na mata, visões naturais magníficas recompensam o esforço. Ladeados por um rochedo granítico impressionante, passamos ao lado da maior cachoeira da América do Norte e lembramos da nossa pequenez e efemeridade. Vimos um arco-íris a dançar nos vapores de Upper Yosemite Falls e imaginamos uma OXUM titânica banhando-se em suas águas.

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“NÃO MORRA HOJE”, diz um aviso. A todo tempo, os visitantes são lembrados de sua responsabilidade pela sua própria segurança e dos demais. O fato de que há perigo real envolvido, e as muitas mortes nos Parques americanos todos os anos atestam isso, não faz com que as trilhas sejam proibidas, nem com que eles sejam fechados. A trilha é bem feita, larga, há corrimãos nos trechos críticos, mas você ou um parente podem morrer ou se machucar se não forem cuidadosos. Mas, enfim, você é LIVRE para subir, se quiser. Nós quisemos. Outros milhares quiseram no mesmo dia. E achamos que era isso mesmo que John Muir queria, não a natureza intocada, privilégio apenas dele e de suas ovelhas, mas uma natureza para muitos: famílias percorrendo aqueles caminhos, respirando ar puro, maravilhando-se, alimentando a alma. Um simpático cervo (Odoicoileus hemiounus) apareceu para encerrar o dia em grande estilo.

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California Ground Squirrel

California Ground Squirrel

 

“Cuidado nas trilhas, senhores. Cascáveis foram avistadas nesta manhã! As pedras estão escorregadias e as águas são traiçoeiras. Ontem um cavalheiro foi levado pela água e ainda não o localizamos. Mas, enfim, tenham um ótimo dia!!!”. Assim fomos recebidos por uma voluntária do Parque no nosso segundo dia. E essa seria a tônica da viagem, muitos alertas o tempo inteiro sobre os perigos das trilhas, dos encontros com animais, do calor, sobre a necessidade de manter-se hidratado, apagar sua fogueira, etc. A quantidade de voluntários trabalhando nos Parques impressiona, muitos deles idosos. Margareth, uma simpática senhora de aproximadamente 70 anos, auxilia visitantes com dicas sobre os caminhos que tanto percorreu em sua juventude e assim, em suas palavras, retribui um pouco de tudo que Yosemite já lhe deu.

 

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Optamos novamente por um hiking longo e íngreme. E novamente estávamos acompanhados por muita gente durante todo o passeio. Subimos pela Mist Trail até o topo de Vernal Falls e Nevada Falls, duas estrondosas cachoeiras. Essa trilha passa bem perto das quedas e é impossível não ficar ensopado. O vento que sopra das serras nevadas junto com a roupa úmida causam uma sensação congelante. Para não repetir o banho gelado, descemos pela John Muir trail, a mais bonita das trilhas que fizemos, com visuais alucinantes das cachoeiras e do Half Dome, impressionante estrutura de granito em forma de meia cúpula. Muitos animais na trilha, esquilos, aves, lagartos e até um simpático urso negro que deu o ar da graça já no fim do dia.

 

Dentro do Yosemite, vivem vários ursos negros, em geral tímidos. Este tinha uma tag de identificação.

Dentro do Yosemite, vivem vários ursos negros, em geral tímidos. Este tinha uma tag de identificação.

 

Seguimos em direção a Mammoth Lakes, nas High Sierras, mas como a estrada que pretendíamos usar seguia fechada por conta da neve recorde que caiu no último inverno, a viagem, que duraria uma hora, tornou-se uma volta de mais de 8 horas ao norte do Parque. Chegamos ao Mono Lake (conhecido como um dos lugares mais estranhos da Terra e protegido como Parque Estadual) no fim do dia. Uma lua enorme, quase cheia, surgia no horizonte do lago, onde formações calcárias brotam da água salobra. Um voluntário observador de aves assistia ao balé crepuscular das fêmeas de maçaricos (Scolopacidae) protegendo seus ninhos na relva.

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 Mammoth Lakes é a única vila do condado de Mono. Situada a 2400 m de altitude, é conhecida por suas estações de esqui e trilhas que podem ser feitas a pé, em bicicletas adaptadas para a neve ou mesmo snowmobiles. Há também quem procure o lugar para caçar e pescar. O Mammoth Historic Museum é uma antiga cabana de caçadores construída manualmente durante os anos da Grande Depressão. Ali, fomos recebidos por outra voluntária, Leslie, membro do High Sierra Club, uma associação de amigos e protetores da região, fundada por John Muir. Por indicação dela fizemos uma trilha de seis quilômetros (ida e volta) até os Scherwinn Lakes. Banheiros ecológicos e lixeiras no estacionamento, ao pé da trilha, garantem a limpeza do local, mesmo sem nenhum funcionário por ali. Encontramos pouca gente no caminho mas uma diversidade enorme de aves e esquilos nos acompanhou o tempo todo.

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 No dia seguinte saímos de oito mil pés de altitude e descemos até atingir 200 pés negativos (70 metros abaixo da linha do mar), chegando a Badwater, um deserto de sal no fundo do Death Valley National Park. A princípio, essa região se desenvolveu devido à exploração de Borax, no começo do século XX. Com apenas seis anos de mineração, as reservas começaram a se esgotar e os proprietários  passaram a procurar outros usos para as terras. Num movimento para proteger a natureza intocada do deserto e atrair turistas para a região — lugar improvável, onde registram-se as maiores temperaturas do planeta —,  começaram a trabalhar para a conservação da área, que primeiro foi transformada em Monumento Nacional (1933) e, mais tarde, em Parque Nacional (1994). No centro de visitantes, perguntamos a uma voluntária se poderíamos ir a uma determinada área do Parque e sua resposta foi: “É melhor não ir lá. Quer dizer, vocês são livres para ir, é lindo, mas não há nada, postos de gasolina, lanchonete, água, nada.” Ou seja, você é livre, a responsabilidade é sua.

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Mesmo numa região tão árida e quente encontramos alguns habitantes da fauna local, como o simpático rato-cervo (Peromyscus maniculatus), uma grande ave de rapina que não conseguimos identicar e o famoso roadrunner (Geococcix californianus), mais conhecido por aqui em sua versão cartoon como Papaléguas. Só faltou o coiote, que muito queríamos ver.

Ave de rapina (não identificada) no meio do deserto de Mojave, a caminho do Joshua Tree National Park.

Ave de rapina (não identificada) no meio do deserto de Mojave, a caminho do Joshua Tree National Park.

O maior lagarto da região, Chukwala, dentro do Joshua Tree NP.

O maior lagarto da região, Chukwala, dentro do Joshua Tree NP.

Rumamos, então, para o sudoeste da Califórnia, onde fica o Joshua Tree National Park,  que abrange parte dos desertos de Mojave e do Colorado. O Parque foi nomeado em homenagem à Joshua Tree (Yucca brevifolia), ou árvore de Josué.  Típica da região, foi assim batizada por colonizadores mórmons que viram, na forma única de seus galhos e troncos, o profeta Josué erguendo os braços em oração após derrubar as muralhas de Jericó. Entre formações geológicas peculiares, incluindo a famosa Face Rock, avistamos a maior biodiversidade de toda a viagem. Diferentes esquilos e outros roedores como o rato de arbusto (Neotoma cinerea) e um parente próximo do esquilo (Tamias speciosus) dividiam a paisagem com pica-paus, abutres, codornas, dois tipos de lebres e até um pato que se aproveitava do açude artificial de uma fazenda para se refrescar e seguir sua rota migratória. Assim como o urso e o cervo que avistamos em Yosemite, ao cair da tarde, uma dupla de coiotes (Canis latrans) surgiu na beira da estrada caçando seu jantar. Pronto, não faltava mais nada. Hora de voltar para casa.

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Cottontail rabbit

Cottontail rabbit

 

    No Brasil, a primeira unidade de conservação — o Parque Nacional de Itatiaia — foi criada em 1937 e, a partir daí, somaram-se inúmeras outras. Nossas unidades de conservação são divididas em dois grupos: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável. As de uso integral, na qual estão incluídos os Parques Nacionais, têm o objetivo de preservar a natureza, sendo autorizado apenas o uso indireto de seus recursos por meio de turismo ecológico controlado, educação ambiental e pesquisa científica. Na prática, isso significa que a maior parte da área nunca vai ser vista pelo público. Apenas áreas muito restritas dos Parques estão abertas à visitação. O restante, só pode ser acessado por funcionários ou por poucos cientistas autorizados. Toda a beleza fica fora do alcance dos que deveriam ser seus legítimos beneficiários.

    Nos EUA, a população (não só a americana, mas qualquer cidadão do mundo) tem acesso à quase totalidade da área dos Parques e escolhe de que forma quer explorá-los: acampando, fazendo trilhas que duram mais de um dia, praticando escalada, cross skiing, rafting, mountain bike. O nível de organização e gestão que suportam essa liberdade de escolha é gigantesco.

    Acreditamos não ser possível conservar sem conhecer primeiro. Se Muir não tivesse explorado, com o olhar atencioso de cientista e o coração jubiloso de aventureiro, as montanhas da Califórnia; se não tivesse transformado suas descobertas em textos publicados em jornais e revistas importantes; se não tivesse transmitido seu conhecimento em histórias inspiradoras, provavelmente essas áreas já estariam degradadas. Bertrand Russel dizia que "a percepção individual é a base de todo o conhecimento”. Sendo assim, nada mais importante para a conservação de uma área do que ela ser conhecida e amada pelo maior número possível de pessoas. Quanto mais gente entender o que torna uma região especial — suas plantas, animais, rios, lagos, relevo, clima —, mais vozes a defenderão da exploração predatória. E se mais pessoas, conhecedoras e apaixonadas, se apropriarem daquela região, usufruindo dela com responsabilidade e respeito, maior será a chance de garantir sua proteção em longo prazo.

    Mas, para isso, governos, cientistas e gestores precisam enxergá-las como áreas de benefício público e torná-las mais abertas à visitação e a diferentes usos. Provavelmente atento a isso, o governo brasileiro começou a ampliar a experiência bem-sucedida de concessões dos Parques Nacionais para visitação turística. O modelo de gestão que já existe em Fernando de Noronha, na Floresta da Tijuca e em Foz do Iguaçu, agora passa a valer também para o Parque Nacional de Brasília (DF), Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e Parque Nacional Pau Brasil (BA). Quando os brasileiros e turistas do mundo inteiro puderem entrar em contato direto com a natureza de nossos Parques de forma mais ampla, estaremos avançando para a construção de uma cultura nacional de amor às nossas unidades de conservação. Voltando às palavras do editor da GQ americana, agora “convertido" a simpatizante e defensor das áreas protegidas, "gostaríamos de lembrá-los de que a melhor maneira de proteger nossos Parques Nacionais é visitando-os”. Foi exatamente isso que sentimos ao longo da nossa viagem. Quanto mais gente circular por aquelas trilhas, mais protegidos os Parques estarão da ganância humana. 

Encontramos este garotinho e sua mãe no alto da trilha John Muir. Eles voltavam de uma noite na montanha. 

Encontramos este garotinho e sua mãe no alto da trilha John Muir. Eles voltavam de uma noite na montanha. 

    

É tempo de compartilhar

 

    Vivenciar os Parques foi mais do que simplesmente contemplar a natureza e refletir sobre nosso lugar no planeta, enquanto olhávamos para algumas das paisagens mais bonitas do mundo. A viagem foi também uma forma de desfrutar de lugares inspiradores ao lado de alguém que amamos, alguém com quem queríamos construir memórias de vida. 

    Ainda que as longas caminhadas proporcionassem momentos de solidão e silêncio, o espírito dos Parques Nacionais é o de serem áreas comuns a todos, e as memórias que trouxemos para casa e que contamos aos nossos filhos foram as das aventuras compartilhadas. As pessoas visitam os Parques juntas para viver essa experiência de amor e de cumplicidade. Essa é a mágica dos Parques Nacionais: eles foram feitos para serem compartilhados!

    Nas próximas férias, convide um amigo, ou alguém com quem você gostaria de passar um tempo, para visitar um Parque Nacional. São tantos! Foi o que fizemos, e esperamos inspirá-los a fazer o mesmo.

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