JARDINS SUSPENSOS DA BABILÔNIA CARIOCA - ARTRIO17

Por Roberta Graham

 

Jardins suspensos da babilônia carioca: IRB abre seu jardim de Burle Marx para visitação durante a Art Rio .

Quem passa pelo prédio de número 171 da Avenida Marechal Câmara, no Centro do Rio, não imagina que ali, no terraço da companhia de resseguros IRB, esconde-se uma joia do modernismo brasileiro. Atrás das roletas de segurança e vidros protetores, está um autêntico projeto de paisagismo de Roberto Burle Marx, complementado por sete painéis de mosaicos de Paulo Werneck. 

O projeto original data dos anos 1940 e foi concebido numa época em que os artistas costumavam trabalhar coletivamente. Desta forma, trocavam ideias e referências que viriam a traduzir o espírito de vanguarda que procurava romper com as amarras coloniais de um pais em busca do seu lugar ao sol no cenário internacional. Um grande exemplo desta sinergia criativa é a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, que reune as mentes de Oscar Niemeyer, Portinari, Burle Marx e Paulo Werneck. A obra, reconhecida internacionalmente, foi considerada patrimônio histórico da humanidade pela Unesco, tamanha a magnitude do encontro destes talentos. Os jardins suspensos do Rio de Janeiro, no entanto, resplandeciam anônimos por trás dos elevadores corporativos, até que a Art Rio 2017 trouxe a oportunidade de conhecermos a sua existência.  

O jardim construído na época não sobreviveu ao tempo e encontrava-se descaracterizado e em estado precário de conservação. A IRB, então, entrou em contato com o Escritório de Paisagismo Burle Marx, criado pelo mesmo em 1995 e administrado hoje por Haruyoshi Ono - seu parceiro criativo por 30 anos. Assim, deu-se início a um trabalho de retorno aos arquivos originais, a fim de trazer de volta à vida um pouco do olhar daquela época. Alguns problemas apareceram ao longo do processo, e exigiram jogo de cintura e adaptação por parte dos envolvidos. A vista da Baía de Guanabara, clara e sem obstruções na época, foi obscurecida pelo aparecimento dos arranha céus do Centro. A profundidade de solo também era muito pequena para a implementação de árvores. A solução foram as composições criadas com a vegetação rasteira, e com espécies que estamos acostumados a encontrar em nosso cotidiano. 

O maior desafio, no entanto, apareceu na hora de reconstruir os sete painéis de Paulo Werneck. Foram encontrados apenas 6 desenhos de 20 cm. Começou, então, uma busca nos arquivos de jornais e revistas da época, a fim de encontrar imagens que pudessem ajudar o trabalho do escritório. A salvação apareceu nos arquivos de fotos da extinta revista Manchete, que possuía cópias em alta resolução de todo o trabalho. A partir daí, e após a busca por materiais similares aos usados nos originais, as obras puderam ser concluídas. 

Paulo Werneck foi considerado o primeiro mosaicista brasileiro, e este foi também o seu primeiro trabalho como tal. Enquanto contamos com a alegria de ver este espaço revitalizado, e sendo exibido para o público, ainda nos causa tristeza ver outros grandes projetos arquitetônicos brasileiros condenados ao abandono. A 'CAUSE Magazine fez algumas imagens desta ode ao movimento Modernista do Brasil, e espera que a iniciativa privada continue a contribuir com a cultura do país, financiando iniciativas como esta.