Foi dada a largada! SXSW 2018

por Leticia Cazarré

For Days

O primeiro dia de SXSW começou tranquilo, mas logo cedo, uma longa fila de espera deu o tom de como será a experiência dos participantes da edição deste ano: muita concorrência para os temas e palestras mais esperados e uma boa dose de paciência para aguardar em pé a vez de ocupar um lugar na platéia. Isto é, quando a sorte nos permite entrar na sala antes que a lotação seja esgotada e um simpático voluntário diga: “há muitas outras coisas legais acontecendo, vão e divirtam-se!”, diante de dezenas de rostinhos frustrados. Foi assim que enfrentei uma fila que se estendia porta afora do centro de convenções de Austin, para assistir à palestra de abertura do diretor de programação do festival, Hugh Forrest. Na minha frente, duas gaúchas conversavam alegres, e muitos outros brasileiros passavam apressados falando alto e demarcando território no maior festival de inovação, tecnologia e criatividade do mundo. Nós já somos a terceira maior nacionalidade aqui no SouthbySouthwest, o que nos dá um certo ar de tranquilidade. Consegui entrar, afinal.

    “A criatividade interliga todo o conjunto”, dispara Forrest, nitidamente nervoso mesmo sendo um veterano, à frente do festival há mais de duas décadas. “A criatividade no SXSW é inspirada por muito, muito, muito conteúdo. Serão mais de 2.000 palestras nos próximos 8 dias, por isso, minha recomendação número um é que vocês fiquem Zen. Conversem com as pessoas nas filas, pois o acaso floresce durante todo o festival”. De todas as dicas de sobrevivência que li e ouvi nas últimas semanas enquanto me preparava, essa foi, sem dúvida, a mais certeira. Chequei o relógio e percebi que teria que sair antes que ele encerrasse sua fala, ou não chegaria a tempo da próxima palestra na minha lista de favoritos: Inteligência Artificial na Moda de Luxo. Andei o mais rápido que pude, cheguei com 20 minutos de antecedência, apenas para ouvir: "sentimos muito, senhoras e senhores, mas estamos lotados!”, seguida da irônica recomendação de “corram para as outras palestras, há muita coisa boa por aí…”. Bom, o jeito era ficar Zen. Encontrar uma tomada para carregar o celular, aproveitar para olhar (de novo!) a programação e traçar uma estratégia melhor para não passar o dia inteiro ouvindo que perdi a palestra, mas há muitas outras… que talvez eu também não consiga assistir!

    "Sustainability or bust: The Future of Brands” era minha próxima aposta. Consegui meu lugar na fila chegando 30 minutos mais cedo. A mesa era formada por três mulheres: Kristy Caylor, fundadora e CEO da marca For Days, Helena Dunn, fundadora e diretora criativa da Tuulikki e Harriet Parker, gerente do fundo de investimentos londrino The Lion Trust. Em uma conversa de pouco mais de uma hora, as três trouxeram argumentos para o que acreditam ser uma tendência irreversível: a longevidade das marcas de moda será diretamente proporcional aos seus investimentos em responsabilidade social e ambiental. Principalmente quando se trata de pequenas marcas. 

    "Sustentabilidade é fazer mais com menos”, arrisca Harriet, a investidora. “É fazer produtos e processos mais saudáveis. Empresas que fazem isso terão maior crescimento e uma história de vida mais longa”. Mas há anos atrás, quando começou a falar em investir em empresas éticas e sustentáveis, Harriet foi advertida por colegas sobre o perigo de apostar nesse caminho. Eles me diziam: “business is business”. Hoje ela se diz feliz por não ter seguido o conselho dos mais conservadores, já que a tendência do mercado de investimentos atual é justamente a de olhar para as empresas mais sustentáveis. Segundo Harriet, em 2016, 23 bilhões de dólares foram direcionados para negócios ligados a marcas ambientalmente responsáveis e, ontem mesmo, a Comissão Européia anunciou sua decisão de fazer investimentos com foco em práticas ambientais. No relatório intitulado "Financiamento sustentável: plano de ação da Comissão para uma economia mais verde e limpa”, o órgão apresentou sua estratégia para um sistema financeiro que apoia a agenda da UE em matéria de clima e desenvolvimento sustentável, estabelecendo um roteiro para impulsionar o papel das finanças na realização de uma economia bem-sucedida que ofereça objetivos ambientais e sociais. 

    Mas o que essa mudança de olhar significa para as marcas pequenas? “Os investidores estarão cada vez mais preocupados em checar se as marcas têm a sustentabilidade como prática”, garante Harriet. "Do ponto de vista do risco, também é possível dizer que os investidores sabem que as marcas social e ambientalmente sustentáveis têm mais chances de crescer e de continuar existindo em longo prazo”. 

    Já Helena Dunn, designer por trás da marca de biquinis Tuulikki, conta que percebeu que os padrões da indústria da moda eram muito baixos em relação ao descarte e outros impactos ambientais, como a poluição de solos e rios com agrotóxicos. Por causa disso, decidiu criar uma marca que pressionasse tanto o mercado quanto os próprios clientes a consumirem de maneira diferente. “Hoje já existem produtos substitutos ao nylon que funcionam exatamente como ele, mas não consomem tanta energia para serem fabricados e garantem uma boa performance para esportes aquáticos”. Dunn acredita que pequenas marcas têm voz pequena, mas ainda assim podem fazer pressão sobre os grandes players do mercado.

 A marca novaiorquina Tuulikki, de biquinis sustentáveis, propõe materiais que não poluem o meio ambiente, mas garantem o conforto e a performance feminina em esportes aquáticos.

A marca novaiorquina Tuulikki, de biquinis sustentáveis, propõe materiais que não poluem o meio ambiente, mas garantem o conforto e a performance feminina em esportes aquáticos.

    Kristy Caylor, também fundadora de uma marca ecofriendly, primeiro formou-se em bioengenharia e depois migrou para a área de negócios. Sempre se questionando como produzimos e vendemos as coisas que consumimos, deparou-se com a magnitude do processo de fabricação da indústria da moda e ficou aterrorizada. “Há cidades inteiras na China construídas para suprir as lacunas da produção de acabamentos de moda, por exemplo”, diz ela. E continua: “o que eu vi lá e em países como a Indonésia não é nada moderno, nada bonito”. Mas o maior desafio, segundo ela, não é investir em produtos mais sustentáveis. O que é preciso para que o consumidor perceba a diferença entre um produto normal e outro fabricado com responsabilidade socioambiental é um bom trabalho de storytelling. 

    Foi com essa mentalidade que ela identificou comunidades vulneráveis no Quênia, na Indonésia e outros países e foi em busca de investidores, tentando convencê-los de que era possível lucrar e até mesmo construir uma marca de luxo produzindo de maneira ética e ambientalmente responsável. Começou a trabalhar com a Ellen MacCarthur Foundation, com o chefe de economia da VISA e transformou em realidade o que muitos achavam impossível. 

    Kristy acredita que se as coisas são feitas com integridade e descartadas corretamente, consumi-las deixa de ser um problema. “Estamos em um período de transição em que a palavra sustentabilidade não soa tão feia, mas o produto precisa continuar sendo sobre a experiência do consumidor, sobre o amor que ele tem por aquilo que consome e usa na sua vida". Pensando assim e partindo do princípio de que as coisas que são recém fabricadas têm mais valor para o consumidor do que os produtos repaginados, propostos por algumas marcas de upcycling, Kristy defendeu uma mudança de ponto de vista que nos permitisse continuar consumindo o quanto quiséssemos, desde que isso não representasse danos ao meio ambiente. 

    Com o slogan "não tenha nada, use tudo”, ela se propôs a reinventar os básicos, oferecendo ao consumidor a chance de devolver os produtos quando não quisesse mais usa-los, para que fossem reciclados e transformados em novos. No Brasil, o exemplo mais próximo disso seria a recente parceria entre a marca carioca Farm e a plataforma Enjoei, empresa de comércio eletrônico que oferece soluções de consumo colaborativo. A Farm oferece desconto nas compras de novas peças para quem quiser devolver seus produtos usados, que serão comercializados em segunda mão no Enjoei, estendendo a vida das peças e evitando que sejam descartadas como lixo. Embora não contemple um processo de reaproveitamento de fibras e tecidos, a iniciativa da Farm é inteligente, no sentido de que promove o discurso do comprometimento ambiental, ao mesmo tempo em que atrai as clientes de volta às lojas para que consumam novamente. Mas, ainda assim, não resolve o problema do descarte. 

    As três palestrantes foram unânimes em afirmar que os designers têm responsabilidade sobre as escolhas de insumos, de fornecedores e em propor novos produtos. "Para as marcas pequenas, pode ser mais difícil provar — principalmente aos investidores — que suas atitudes estão realmente promovendo melhorias e conquistando os consumidores”, diz Harriet. "Elas geralmente são tão pequenas que não dispõem das ferramentas para demonstrar seu sucesso. Mas isso não significa que as atitudes que estão tomando não sejam importantes". Por outro lado, marcas grandes podem ter ainda mais dificuldade em modificar suas práticas, já que suas cadeias são longas e a escala, maior. Mais um motivo para acreditar que é das pequenas marcas sustentáveis que virão as maiores mudanças de que a moda e, em última análise, nosso planeta, precisam.